Não se pode falar de dubstep sem mencionar a relevância e o legado insuperável do Horsepower Productions. Sendo assim, conhecer o
In Fine Style - primeiro álbum do trio - é tarefa obrigatória e fundamental para conhecer o estilo e entender sua evolução ao longo do tempo. Ao contrário do que muitos imaginam, o dubstep é uma mutação do house inglês e não do drum'n'bass - apesar de dividirem algumas semelhanças, seu parentesco é distinto. O Horsepower Productions é cria da cena 2-Step londrina, um gênero eletrônico muito prolífico e influente no final dos anos 90.

Quando o termo "dubstep"
surgiu pela primeira vez na capa de uma revista, era o Horsepower Productions que estava lá para ilustrar e explicar o fenômeno. Ben Garner (Benny Ill), Matt Levesconte (Lev Jnr) and Yannis Small (Nassis) figuraram com destaque na edição de julho de 2002 da californiana XLR8R. Tanto prestígio não foi por menos: embaixo do braço eles traziam um double pack em vinil e um CD, um trabalho sólido bem acabado, o primeiro álbum do trio pelo seminal Tempa, selo inglês que arrebanhou os talentos mais proeminentes da época e iniciou a construção de um dos catálogo mais importantes do estilo.
DO GRAVE AO GROOVEO
In Fine Style reunia faixas que o Tempa havia lançado previamente de forma avulsa, em discos isolados. A música já era conhecida pela pequena cena que havia se formado ao redor da noite Forward, no clube Velvet Rooms, em Londres. O som era um misto de UK Garage com diversas influências, principalmente todo universo sonoro que podia ser extraído de samples de filmes clássicos: trechos de diálogos, loops percussivos, detalhes das trilhas, etc. Funk, soul e toda atmosfera aveludada do r&b - como em "Django's Revenge", "What We Do (Remix)", "Classic Deluxe", "Stone Cold Soul Vibes" e "Pimp Flavors" - se misturavam com poderosas emissões de grave sob a forma de basslines que privilegiavam o groove e a pista de dança. Mas não era isso que tornava o Horsepower Productions diferente dos seus contemporâneos.
Em "Fist Of Fury" e "To The Beat Y'all" - originalmente lançadas no mesmo single em 2001 e curiosamente trazendo a foto de Bruce Lee no vinil - o clima fica pesado e tenso. As intrincadas construções percussivas de "The Swindle" e "Rude Boyz" atentavam para edições minuciosas, com propósito estritamente instrumental, sem a presença de vocais muito elaborados. Já "Log On (Dub)" conseguia conjugar os aspectos rústicos e orgânicos da cultura musical da Jamaica com o estilo de vida sintético, tecnológico e urbano de Londres. Essa produção em particular era um remix
uptempo do
riddim de mesmo nome, mas sem as
baboseiras homofóbicas cantadas pelo músico jamaicano Elephant Man.
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HORSEPOWER PRODUCTIONS - Log On (mp3)
Em "Fat Larry's Skank" a atmosfera conspirava algo mais primitivo, quase abandonando o aspecto civilizado e festivo de uma noite normal num clube qualquer do Soho londrino. O melódico, o lírico, o erótico e todo o arcabouço festivo do garage inglês se confundiam com o medo, a claustrofobia e a paranóia daquela fantástica mutação sonora desbravada pelo Horsepower Productions. A música, que pouco lembrava as divas açucaradas e os samples oriundos da disco, praticamente desafiava o alto teor de glicose do UK Garage na época. O trio vasculhava a profunda imensidão da rica sonoridade caribenha em busca de preciosidades sonoras que pudessem transformar o ordinário em algo espetacular. Surgiam congas e tambores de todos os tipos. Eco, delay e reverb cozinhavam uma sopa de caldo grosso, completamente letárgica. O batuque daquela tribo foi tão consistente que inevitavelmente inaugurou o que hoje se convencionou chamar
dubstep.
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HORSEPOWER PRODUCTIONS - Fat Larry's Skank (mp3)
INFLUÊNCIA É CRIAR LOOPSO poder de influência do Horsepower Productions foi tão forte que o wobble bass de "HDN" e "Gorgon Sound" - aquele bassline oscilante que abusa de LFO - pode ser ouvido ainda hoje em produções de Skream, Benga ou qualquer outro artista do gênero. Com o passar dos anos esses e outros truques de estúdio se calcificaram e instauraram padrões de produção. Essas regras se tornaram linhas divisórias imaginárias que poucos artistas ousam cruzar. Apesar de serem usados para classificar, definir ou rotular, esses standards também esperam pelo dia da sua própria derrocada final. Em outro momento eles foram o ponto de partida de
In Fine Style e a razão de uma mudança significativa no rumo musical da cena. O Horsepower Productions teve de romper completamente com os padrões de produção vigentes em 2002 para dar vazão ao ímpeto criativo que hoje faz história e é considerado referência de identidade sonora e originalidade.
rude boyz é minha favorita.