Estréia da dupla é autoral e particular, sem pretensão de pertencer a nenhuma cena
01.07.08 13:25
Estamos vivendo anos de forte personalismo na música. Enquanto o biênio 2006/2007 foi marcado pela insistente associação de bandas a um grande "movimento", principalmente na música eletrônica, estamos agora em tempos de pulverização. Época de descentralização de marcas e estilos, além de uma visível onda de auto-referência por parte dos músicos.
Os sinais estão aí. Moby relembrou suas noitadas junkies em Nova York com Last Night; M83 deu um banho de nostalgia adolescente em Saturdays = Youth; E uma das maiores revelações do ano (pelo menos enquanto o limite é o estúdio), o Hercules & Love Affair estreou com um som fino e feminino, reflexo bem acabado do espírito do projeto.
Nessa lista de bons álbuns carregados da personalidade de seus criadores está uma das estréias mais esperadas do ano - o álbum homônimo dos Black Ghosts, dupla londrina formada pelo DJ Theo Keating e pelo cantor Simon Lord, antigo vocalista do Simian. O disco será lançado oficialmente no dia sete de julho, pela Southern Fried Records (selo de Fatboy Slim), mas já vazou na internet há semanas.
REFERÊNCIAS OBSCURAS The Black Ghosts é cheio de referências à bagagem cultural da dupla criadora. O romantismo e a literatura de horror fantástico, de cujas noites embriagadas surgiram grandes nomes como Byron e Edgard Allan Poe, está desde a arte cadavérica da capa até os violinos apocalípticos de "Someway Trough This". Tanto Simon quanto Theo admitem essas influências (além de algumas outras mais exóticas, como o clássico Holy Mountain de Alejandro Jodorowsky) em entrevistas e no material de divulgação.
The Black Ghosts - "Someway Through This"
Esse personalismo latente, que evita associações a outros grupos e artistas, faz de The Black Ghosts um disco singular; reflexo de artistas e referências únicas. Entre as onze faixas que compõem o álbum o ouvinte vai encontrar principalmente electro-pop apimentado por violinos e pelos vocais de Simon, mas há lugar para baladas lentas e canções que ficam entre a disco e a house francesa dos anos 90 (a introdução de "Until it Comes Again" não lembra "Da Funk", do Daft Punk?).
O CD abre com um dos principais sucessos (e talvez o ponto de virada) da dupla, "Anyway You Choose to Give It". Para muitos, foi assim que o som de Simon e Theo chegou aos ouvidos pela primeira vez, há alguns meses. Linha de baixo sintética, vocais envolventes e ritmo galopante, que mal deixa tempo para o ouvinte se recuperar da overdose pop que é a faixa. Seguindo essa linha, há ainda a ótima "I Want Nothing" e a irônica "Repetition Kills You", que conta com a participação do prolífico Damon Albarn, vocalista do Blur e do Gorillaz. As músicas seguem uma fórmula de simplicidade que se desenvolve sobre algumas poucas notas de sintetizadores lo-fi.
"Full Moon" pode ser um refresco bem-vindo para aqueles que já acompanham a dupla há mais tempo, através do YouTube ou de blogs de música. A faixa deixa os synths de lado para apostar em dedilhados compulsivos de viola e em um baixo vagaroso. Simon respinga melancolia em seus vocais, e alguns violinos soturnos completam a fórmula. Mas não espere por uma trilha fúnebre, e sim um bom acompanhamento para noites regadas a vinho tinto barato, para ler Noite na Taverna ou O Gato Preto.
Live in Los Angeles
CADÁVERES ANIMADOS The Black Ghosts está longe de ser um trabalho melancólico. Apesar do estilo fantasmagórico e tributário ao gótico clássico, as músicas ganham com a variedade temática e estética. "It's Your Touch", por exemplo, é pura sensualidade acompanhada por notas insulares de teclado. Poderia acompanhar a caminhada de alguma loura bronzeada na praia de um seriado norte-americano dos anos 70, ou estar na programação da rádio Flash FM, do jogo GTA Vice City.
O álbum fecha com "Someway Through This", uma das músicas mais intensas lançadas nos últimos tempos, pelo menos quando o assunto é eletrônica pop. Simon consegue imprimir angústia em seus vocais e, como se não bastasse, o arranjo inclui violinos e um forte bumbo marcando o compasso.
A estréia do Black Ghosts é isso. Angústia, sensualidade e ironia a serviço de uma música despretensiosa, sem melodias hipnóticas ou samples fatiados. Tudo empacotado em uma embalagem extremamente autoral e particular, sem pretensão de pertencer a alguma cena ou corrente musical do momento. É também prova cabal de que foi bendita a hora em que o Simian se desmanchou para cada metade seguir seu próprio caminho.