
Colado a um zeppelin, um painel eletrônico sobrevoa Miami exibindo a frase
"The World Is Yours". É uma cena emblemática de
Scarface porque simboliza um personagem do filme que conquistou o "sonho americano": Tony Montana.
Tony "chegou lá" por vias não muito recomendáveis. De lavador de prato em uma lanchonete suja torna-se um milionário casado com uma mulher linda. Mas é uma história construída com rios de sangue, chuvas de balas e montanhas de cocaína.
Dirigido por Brian de Palma,
Scarface assustou e indignou muita gente quando estreou nos cinemas americanos há 25 anos, em 1983. Tratada no filme como um meio de sobrevivência, a violência é incessante e desmedida; em uma cena clássica, traficantes armam-se de uma serra elétrica para matar um rival. O sangue jorra na cortina da banheira nessa homenagem de De Palma a Hitchcock.
No início dos anos 1980, De Palma vinha de dois de seus filmes mais prestigiados:
Vestida para Matar (1980) e
Um Tiro na Noite (1981). Em vez de suspense ou do clima
noir, faz de
Scarface um filme de excessos: as cores são estouradas, os gestos são expressivos, a ambição de Tony Montana é descontrolada. O filme é exemplo da versatilidade e da originalidade de De Palma, cineasta que tem no currículo
Femme Fatale,
Dublê de Corpo,
Fogueira das Vaidades,
Os Intocáveis,
Missão Impossível, entre tantos outros.
DE AL CAPONE A FIDEL Scarface é baseado no longa homônimo de Howard Hawks, de 1932. Ali, Hawks se inspirava em Al Capone para criar um personagem que domina a criminalidade de Chicago dos anos 1930. De Palma transporta seu anti-herói para a ensolarada Miami e sua comunidade latina.
O filme tem início com um texto que explica como Fidel Castro, em 1980, deixou muitos criminosos escaparem de Cuba para os EUA. Ao chegar a Miami, Tony Montana (em interpretação luminosa de Al Pacino) é interrogado e levado a um centro de detenção de imigrantes. Para escapar, Montana está disposto a qualquer coisa --e, em troca de um green card, aceita a incumbência de matar um ex-comunista cubano que também está detido. A liberdade não é suficiente para Montana. Não basta ser livre; tem de ser livre e viver (muito) bem. Consegue outro serviço, desta vez relacionado ao tráfico de cocaína. Dali em diante, Montana olha apenas para cima. Mata chefes e rivais, arma um superesquema de tráfico e de lavagem de dinheiro. Em sua trajetória, é escorado por Manny (Steve Bauer), seu amigo e braço-direito, pela irmã Gina (Mary Elizabeth Mastrantonio), e por Elvira, vivida por uma Michelle Pfeiffer quase virgem para o grande público do cinema (ela havia feito apenas quatro longas que não causaram muita repercussão).
FUCK YOU FUCKING FUCKER,!DON'T YOU FUCK WITH ME!Além dos atores, outros nomes de peso fazem parte da produção de
Scarface. Os excessos estéticos e visuais do filme são culpa também de Oliver Stone, que assina o roteiro. (E talvez venha de Stone a principal contribuição para os 206 "fucks" que são gritados durante os 170 minutos de duração do filme.) E a trilha é de responsabilidade de Giorgio Moroder (com um excesso de sintetizadores pop, a trilha é o único ponto do filme que não envelheceu bem).
A história relida por De Palma tornou-se um mito popular. Virou game, graphic novel e inspirou pôsteres que podem ser encontrados em qualquer esquina de Miami ou Nova York, motivando ainda o álbum
Music Inspired by Scarface, que a Def Jam lançou em 2003. Curiosamente,
Scarface é provavelmente a película mais cultuada pelos rappers norte-americanos _uma versão em DVD lançada no Brasil em 2004 traz o documentário
Origens de um Clássico do Hip Hop, que retrata a adoração ao filme por gente como Puff Daddy, que diz ter assistido ao filme 63 vezes.
Como diz Tony Montana em uma de suas impagáveis falas, "abram alas para o cara mau".
é foda ser mais blaze que a Elvira