Sónar Day + Night (sáb, 21/jun)
Jeff Mills, live from Saturn
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ficha técnica
Nota: 4.8 / 5
Ano: 2008
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Sónar Day + Night (sáb, 21/jun)
X-102 (UR), Yazoo, Villalobos, Dial Records, Ed Banger e os apitos do metrô barcelonês
23.06.08 11:55
The Black Dog
The Black Dog
BARCELONA:Terminou por volta das sete horas da manhã do domingo a 15º edição do festival catalão Sónar. Quem achava que os últimos DJs a se apresentarem - entre eles Ricardo Villalobos e Efdemin - esticariam os sets até a hora do almoço se enganou, e quando a música parou os seguranças já se preparavam para expulsar quem havia restado (e não foi pouca gente). Na saída dos galpões da Gran Via o público ainda se despediu do evento com a já tradicional salva de palmas, antes de procurar por outra festa para descarregar as energias. No metrô teve quem dançasse até ao som do repetitivo apito das catracas - para o estranhamento de quem estava indo trabalhar ou simplesmente passando por ali.

O Sónar by Day de sábado começou com sets de DJs locais e estrangeiros. Segundo freqüentadores mais antigos, poucos anos de Sónar assistiram a tantos shows de artistas espanhóis como em 2008. No sábado tocaram CaboSanRoque e Señor Rosa, entre outros nomes da eletrônica ibérica.

Foi a mais agitada das três tardes, e quando a noite começou a cair, o bucólico Sónar Park havia virado uma pista de dança em fim de festa, com muito lixo espalhado e com o tapete de grama sintética revirado por todo canto. A programação esteve decididamente voltada para os ritmos mais agitados, dançantes e agressivos.


MARTIN SCHMIDT E DREW DANIEL (MATMOS)

No Hall subterrâneo, local certo para assistir gigs lotadas e esperar em filas para entrar, tocou uma das atrações mais esperadas do Sónar Day - o projeto norte-americano Matmos. Embalados pelo recente lançamento de Supreme Baloon, eles passearam pelo novo repertório e por material antigo. O trio tocou rodeado por uma grande parafernália analógica, e em alguns momentos - como na abertura - escapavam para fazer algum truque cênico, como acender velas ou brincar com lanternas sobre o público.

Quem já conhecia o som dos americanos já sabia o que esperar - faixas longas e psicodélicas, com uma sonoridade que não é exatamente chip tune, mas que tem cara de que foi feita por geeks musicais viciados em consoles antigos. Os veteranos do Black Dog, da Soma, encerraram a programação do Hall. Nada de techno morno, cozido em fogo lento. A dupla transformou o subterrâneo do MACBa em uma pista de dança explosiva com seu breakbeat soturno, que apesar de não soar nem um pouco orgânico, foi motivo suficiente para todos dançarem até o fechamento do local.

O DESENGONÇADO SKWEE NÓRDICO
A grande tenda do Sónar Dôme também não ficou para trás em atrações. Se o showcase da gravadora francesa Dirty já animou com seus figurões do edit - Pilooski e Discodeine - foi o pessoal do Skwee que fez uma das melhores apresentações do dia. O gênero, representado por produtores dos selos escandinavos Harmönia e Flogsta Danshall, fez a alegria dos interessados em dançar a sons mais animados que o do austero Black Dog.

SKWEE PEOPLE: Randy Barracuda, Mesaka, SLA e Eero Johannes
SKWEE PEOPLE: Randy Barracuda, Mesaka, SLA e Eero Johannes
Todos os artistas dos selos subiram ao palco juntos, totalizando oito pessoas. Suecos e finlandeses, um mais exótico que o outro, se amontoavam por trás de uma aparelhagem toda desconexa, cheia de cabos e instrumentos improvisados. Esse som nórdico é um breakbeat desengonçado, propositalmente caseiro e imprevisível, sempre acompanhado de danças estranhas e gritos com sotaque carregado. Se você ainda não ouviu nada do tal Skwee, procure agora pelos lançamentos dos dois selos desse showcasem, pois os caras são bons!

Como se o som escandinavo não fosse loucura suficiente, teve ainda no Sónar Complex o especial Osaka Invasion, com algumas apresentações de artistas experimentais japoneses. Entre eles tocou o DJ Scotsch Egg, que preparou um tipo de gabba-nipônico cheio de ruídos, gritaria e melodias infantis como do clássico western "Oh! Susana" (aquela do Alabama, lembram?). Tudo isso dentro de um pequeno hall do MACBa, com Scotsch vestido um capuz macabro enquanto disparava suas bases a partir de um iPod. Bem estranho.

SÓNAR BY NIGHT - SÁBADO
Se a terceira noite de festival não contou com a grandeza de nomes como Justice e Roísín Murphy, a atmosfera de encerramento tornou o clima especial. Ninguém queria arredar o pé da pista, e no Sónar Lab a madrugada era de comemoração para o pessoal da Dial Records, que levou até champanhe para o palco. Ali, Pantha Du Prince fez seu live fino, orgânico e melódico todo vestido de preto - padrão que ele usa até mesmo sob o sol rachante de
Neon Neon
Neon Neon
Barcelona. O alemão deve vir para São Paulo em outubro, mesmo após a troca de datas do Sónar brasileiro, para um outro festival organizado com apoio do governo da Alemanha.

Apesar da concorrência de peso (no Sónar Pub, o único espaço ao ar livre do local e muito maior que o Lab, o chileno Ricardo Villalobos hipnotizou o público por duas horas com seu techno percussivo e étnico), o pequeno espaço da pista acomodou confortavelmente quem estava à procura de sonoridades mais hipnóticas. Em seguida, tocou Efdemin, que fechou o showcase da Dial fazendo graça com o público e com seus colegas de selo. Quando terminou, foi aplaudido como se houvesse salvado a noite de centenas de clubbers sem teto.

ESPAÇO PARA TODOS: MÍNIMOS E MÁXIMOS
Bonde
Bonde
Mas apesar da festa ter terminado para muita gente sob o signo do minimal, a programação foi também de barulheira, maximalismo e de (algumas vezes micadas) visitas ao passado. A primeira parte dos adjetivos ficou por conta principalmente do grupo belga Soulwax - que tocou com ares de headliner no amplo Sónar Club. Como de praxe, apresentaram alguns de seus remixes e produções próprias da mesma maneira com que o fizeram no Nokia Trends 2006 - vocoders, bateria ao vivo e sintetizadores analógicos dando o tom.

Mas se há dois anos atrás o repertório tinha entre seus melhores momentos o cover de "Washing Up", de Thomas Andersson, o Soulwax está agora embalado pelo lançamento de seu recente Most of the Remixes. Então além dos hits tradicionais como "E Talking", teve também o excelente remix para "Robot Rock", do Daft Punk, e para "Gravity's Rainbow", dos Klaxons. Tudo muito bem adaptado para o formato ao vivo, tornando o remix mais um cover improvisado que uma simples reprodução do material do disco em caixas amplificadas.
A-Trak vs Mehdi
A-Trak vs Mehdi

Para quem foi ao Sónar em busca de barulho, a festa continuou com o showcase da Ed Banger no Sónar Pub. Ali estiveram alguns dos principais membros do selo, em discotecagens e lives. Pedro Winter, o Busy P. e SebastiAn fizeram sets que passaram pelo clássico da acid "Higher State of Counsciosness", de Josh Wink, e por "Le Cream". Como se vê, nada muito criativo ou surpreendente, mas que quando tocadas com a idéia de "música para dançar e se divertir", sempre funcionam. O mais interessante foram os lives de Nil e de Krazy Baldhead - que tem uma careca que justifica o apelido. Esse último tocou pesado, mas lento e cadenciado, que lembrou de longe o gangsta norte-americano, ainda que travestido sob os sintetizadores massacrantes do novo electro francês.

O showcase se estendeu também para o Sónar Park, onde o DJ Mehdi - outro figurão da Ed Banger - dividiu os toca-discos com o nova-iorquino A-Trak para encerrar o palco. Quem esperava pela anunciada participação da rapper Kid Sister quebrou a cara, já que a maior parte do set foi protagonizado apenas pelos dois DJs. No final, A-Trak anunciou que faria algo "mais criativo", e aí a coisa saiu da mesmice (eles também tocarma "Le Cream" antes dessa canja). Mixaram Midnight Juggernuts com Chromeo com toda a técnica que os cabe, jogando o fader do mixer para um lado e para o outro com a habilidade que só um turntablist pode proporcionar. No fundo do palco também estiveram SebastiAn e Busy P. mas só para fazer graça - não foram poucas as vezes que Pedro apertou a bunda de Mehdi.

X-102 discovers The Rings Of Saturn
X-102 discovers The Rings Of Saturn
SATURN, WE HAVE A PROBLEM
O revival do Sónar Noite ficou por conta da dupla Yazoo, que soltou seu synth-pop clássico no Sónar Pub, e pelas mãos incensadas do projeto X-102. Jeff Mills e Mad Mike reinterpretaram as músicas do disco Discovers the Rings of Saturn, pedra fundamental do techno na década de 90, com projeções de imagens dos anéis de saturno.

Apesar de toda a aura de respeito e mística que baixou no Sónar Club para o show, a coisa não andou muito bem. Logo nos primeiros minutos a apresentação foi interrompida e as cortinas voltaram a se fechar. Voltaram a se abrir algum tempo depois, mas foram poucos os momentos em que a dupla realmente conseguiu fisgar o público com seu techno bruto, despojado de ambiências ou melodias complexas, e com as entediantes imagens de Saturno projetadas sobre os telões.

Como se não bastassem tantas atrações no line-up apertadíssimo do Sónar (para marinheiros de primeira viagem pode ser uma experiência atordoante ter que ver tanta coisa em tão pouco tempo), teve ainda sets dos embaixadores do kuduru - os portugueses do Buraka Som Sistema -, show do Neon Neon, Bonde do Rolê, Dubfire e o já tradicional set de Miss Kittin, em que a francesa canta sobre as bases que ela solta dos toca-discos. A diva do electroclash tocou como quem já está acostumada a controlar as multidões catalãs (ela é habitué do festival). Prato cheio para quem gostou de Batbox, álbum mais recente da DJ, já que boa parte do repertório da apresentação passou por músicas do disco, interpretadas com voz neurótica, ainda que afinada, no Pub. Miss Kittin, aliás, é outra que já está com booking quase certo para o segundo semestre brasileiro.



SÓNAR = PÓS-GRADUAÇÃO CLUBBER
O 15º Sónar terminou cedo, mas os três dias de programação foram tão intensos que a sensação não foi outra que não de preenchimento. Mesmo com ausências (M.I.A. e Konono No 1) e decepções (X-102 e Hercules & Love Affair), não faltaram projetos de música experimental, shows inesperados, gente de todo o mundo, barulheira ininteligível, novos artistas, nomes consagrados e muitos DJs dispostos a manter o público de pé até o último aviso dos seguranças. Ainda que muita gente afirme que os tempos áureos do festival ficaram para trás, passar três dias de imersão musical em Barcelona ainda é uma experiência única, tanto para aqueles atrás de novos paradigmas sonoros, grandes shows ou simplesmente para dançar embalados por alguns dos nomes mais incensados da música eletrônica.

Fotos: Renata Macedo (rraurl.com) Juan Sala, Óscar García e Alicia Aguilera (sónar.es)
Texto: Marcus Brasil
Edição: Jade Gola

Marcus Vinícius Brasil
Marcus Vinícius Brasil (marcvs @ rraurl.com)
twitter.com/marcvs
Renata Macedo Melo Silva
Renata Macedo Melo Silva
comentários
Señorita Vê
Señorita Vê (28.07.08)
0AprovadoQueima
Poxa o live do Black Dog deve ter sido Otimo! :(
Já sairam os sets pra baixar em algum lugar ?
PILHA
PILHA (24.06.08)
0AprovadoQueima
Breakbeat desengonçado vou conferir o som do SKWEE que deve ser foda!
Douglas Giammusso
0AprovadoQueima
quem disse que o minimal morreu?
é um estilo que criou vida própria e nunca irá morrer, acredito que assim como o techno, o minimal estará sempre se renovando a medida que produtores como villalobos sempre estarão um passo a frente. o que pode acontecer é a mídia e alguns djs, darem outro nome, só para estarem em evidência e dizerem que tocam algo diferente.
CaiovzKy
CaiovzKy (23.06.08)
0AprovadoQueima
cara, eu daria tudo que tenho pra ter visto Villalobos e depois efdemin em sequencia, rolo muita coias de minimal (um sinal de que nao morreu), e outra esses franceses ae apertando a bund um do outro que coisa feia hahahhah...putz e deve ter sido loko o mehdi com atrak...e vo a procura de algo do skeew....