Ícone fashion e do cinema cult, Scarlett brinca de Cocteau Twins ao homenagear Tom Waits
29.05.08 17:15
Eu não tinha dado bola para a notícia de que a atriz/sex-symbol Scarlett Johansson lançou disco com covers de Tom Waits. Foi só ao ler as respostas da nova-yorquina de 24 anos em entrevista à Spin de abril que fiquei sabendo que David Sitek, do TV on the Radio, é produtor do disco. E foi na mesma entrevista que passei a gostar da moça, impressionada com as respostas atravessadas para o jornalista espertinho. Esse tipo de anti-marketing na linha "eu não quero agradar você, mas vou ficar feliz se gostar do meu disco" deu vontade de ouvir o dito cujo.
E não é que Anywhere I Lay my Head é uma grata surpresa? Exatamente do tipo que a gente recomenda para amigos, bem como Scarlett pede na tal entrevista para à Spin quando diz que gostaria que o álbum fizesse sucesso só na base do boca-a-boca.
É uma questão de ouvir no momento certo, sob risco de achar o álbum apenas chatinho e pretensioso. E com momento certo eu quero dizer, de preferência, curtindo uma leve fossa - já percebeu como a fossa está de volta ao status de interessante na música hoje? - no pôr-do-sol de outono, com café, quem sabe conhaque, talvez um cigarro.
Galocha é TÃO 2008!
David Bowie faz participação especial como produtor em duas faixas: "Falling Down" e "Fannin Street", justamente as mais melódicas, tendo a voz de contralto de Scarlett como atração principal, ainda que em meio a efeitos de eco e reverberações. A voz dela é o único elemento realmente imprescindível do álbum (porque os ôôôôs de Bowie atrás do coro de vozes quase coloca a perder a beleza épica que é a cover de "Fannin' Street").
Claro que beleza pode ser subjetiva, mas o climão pra baixo é uma constante. Como o momento órgão, na melhor tradição missa de funeral, durante a abertura de "Fawn". Mesmo a caixinha de música que permeia "I Wish I Was in New Orleans" ganha tonalidades sinistras durante seus quatro minutos (hey, é um album de versões das faixas do Tom Waits, afinal, você queria o quê?). "I Don't Want to Grow Up" (de Tom Waits, famosa na regravação dos Ramones em 95) pode ser candidata a remixes na versão de Scarlett, principalmente pelas batidas eletrônicas, único momento em que o disco dá uma leve acelerada.
Faixas de nomes auto-explicativos como "Town with No cheer" forçam a famosa voz grave da cantora, jovem e alegre demais para conseguir alcançar o amargor exigido pelo autor original. A única faixa que não foi selecionada dentre o vasto catálogo de clássicos cult de Tom Waits é "Song for Jo", assinada por Scarlett e Sitek. O resultado mezzo-étnico mezzo-sonolento da faixa, com sussurrados vocais e batidas arrastadas, não está entre os grandes momentos do disco. Se não faz feio como faixa de transição, também não responde pq foi selecionada.
E enquanto isso, ao vivo...
"Falling Down" @ AOL Music Sessions
O que explica alguma coisa desse projeto misterioso é o fato de que Anywhere I Lay my Head é realmente um disco de estúdio. Não que isso seja um problema - existe tanto que a gente ouve sabendo que só é possível no controlado ambiente de um estúdio de gravação, não? Mas é um pouco decepcionante saber que a profunda voz que a gente escuta no disco não é tão segura ao vivo.
Mesmo assim o disco da atriz/cantora soa bonito, maduro e digno. Só perguntas ficam no ar: como é que um disco da Scarlett Johansson fazendo covers do Tom Waits e produzida pelo David Sitek pode soar tanto como... Cocteau Twins? O fato de a imprensa musical não ter destruído o disco em reviews pode fazer com que exista uma continuação? E, afinal, o que o Tom Waits achou?
Tem talento a menina... pelo menos não será só mais uma Gwen Stefani (que ela se parece, tadinha), Fergie ou coisas escrotas do tipo... Ganhou meu ouvido, mas acho que podia ser mais animado..
Falling Downnnnnn
Ganhou meu ouvido, mas acho que podia ser mais animado..