Um Beijo Roubado
faça login para votar!
Enviar esse texto
login para votar!
  • Currently 4.71/5
Nota: 4.7 (7 votos)
login para votar!
ficha técnica
My Blueberry Nights
Direção: Kar Wai Wong
Elenco: Norah Jones, Jude Law, David Strathairn, Tim Roth, Natalie Portman, Rachel Weisz, LaVita Brooks, Chad R. Davis, Trent Dee, Geoff Falk e Cat Power
Duração: 111 min
Nota: 4.5 / 5
Ano: 2008
social bookmarks
Digg
Mugg
del.icio.us
Um Beijo Roubado
Mirtilo e Vodka: Lado B, pé na estrada e um beijo roubado
12.05.08 12:25
O diretor e Jude Law
O diretor e Jude Law
Em seu universo cinematográfico, o chinês Wong Kar-wai - que já legou preciosidades como Amor à Flor da Pele, 2046 e Amores Expressos - há de ser reconhecido por tomar os melhores ângulos de quem sofre. Uma coisa é certa em seus filmes: sempre haverá uma cena em que alguém muito bonito estará chorando. E copiosamente. O cineasta chinês é mestre em retratar o lado B das pessoas. Curiosamente, em suas narrativas, há situações e cenas recorrentes, como a nos dizer que as histórias são especulares e se abrem como num abismo uma por sobre as outras. As pessoas do mundo Wong Kar-wai estão constantemente num embate com a impossibilidade de realização do desejo. Mestre das cores quentes e saturadas, os sentimentos seguem a mesma cartela de sensações. O alto contraste também está presente na mais recente realização do diretor, My Blueberry Nights (Um Beijo Roubado virou o título em português). No começo, em sua graça e leveza, talvez o espectador sequer desconfie que será convidado a visitar emoções tão profundas. É com a imagem de um trem em alta velocidade que o filme efetivamente começa.

Dali somos levados a acompanhar Elizabeth - ou Lizzie (Norah Jones). Às voltas com um relacionamento que termina sem fim, ela se aproxima de Jeremy (Jude Law) - dono de um café e responsável pelas chaves do apartamento de casais vizinhos apartados. Decidida a enfrentar a dor do amor, parte em viagem pelos EUA, e depara-se com o embate entre Arnie, um policial alcoólatra (David Strathairn) e Sue Lynne, a gostosona da vez (Rachel Weisz, linda). Em outra parada, topa com Leslie (Natalie Portman), uma jogadora compulsiva disposta a apostar o que não tem, mas com muito medo de ser magoada pelo próprio pai. Desejo, morte e ambição, o café de Jeremy, o bar de Travis e o cassino em Nevada, chaves, fichas do AA e de apostas, Torta de Mirtilo, vodka e sanduíches, Sue Lynne, Lizzie e Leslie, sofrer, contar a sua dor e ouvir a do outro, observar, trocar: em sua viagem país afora, Lizzie por vezes encontra-se em posição semelhante à de um espectador na sala de cinema - privilegiada, acompanha o outro em sua dor sem no entanto senti-la em sua própria pele.

OLHAR ESTRANGEIRO
Rachel Weisz, a gostosa da vez
Rachel Weisz, a gostosa da vez
Em seu primeiro filme feito nos Estados Unidos - sem o deslumbramento de registrar o país em tomadas turísticas -, e com o star system local, o diretor apresenta personagens de sua própria lavra, com sua prosódia particular - o que pode parecer só um detalhe, ganha outra dimensão dada a importância que tem a musicalidade em sua obra, aqui num registro em língua estrangeira. Como em suas outras realizações, todos estão às voltas com uma inquietude ligada à noção de pertencimento - Arnie quer pertencer à Sue Lynne, Leslie quer pertencer ao pai mas seu ceticismo a impede, Lizzie parte em busca do que é e em direção ao que cabe ser, segue o seu desejo para também ser reconhecida pelo que experimenta - do gosto amargo da morte, no caso de Sue Lynne e sua vodka, ao doce sabor da aproximação da torta de mirtilo de Elizabeth, sua faceta citadina, levada com candura pela não-atriz Norah Jones. "Estrangeira" no ofício, a cantora contribui para a autenticidade da personagem. Na avant-premiére, durante a abertura do 60º festival de Cannes, o filme teve uma recepção morna. Grandes expectativas cercaram a exibição do filme novo de Wong Kar-wai, presidente do Júri um ano antes e vencedor do prêmio de melhor direção por Happy Together, em 1997.

A TRILHA
A trilha sonora dos filmes do Wong Kar-wai é sempre um desdobramento do que as sensações luminosas das imagens constroem em nossas retinas. No caso de Um Beijo Roubado, há uma equilibrada combinação entre expoentes da soul music, como Otis Redding e Ruth Brown, e novas divas do pop e do jazz - caso de Cat Power - com duas faixas ("The Greatest" está no trailer e é uma das mais marcantes do disco) - e Cassandra Wilson - em sua delicada cover de Neil Young, "Harvest Moon". Norah Jones também comparece e não faz feio com uma balada à altura dos melhores momentos do sr. Wong. Sua canção abre e fecha o filme, mas é no mais profundo silêncio que se assiste ao tal beijo roubado.
Escrito em parceria - fato inédito na carreira do diretor - com Lawrence Block, e pela primeira vez com a colaboração do diretor de fotografia Darius Khondji, o filme apresenta um cineasta igualmente suntuoso, embora muito mais intimista que em qualquer outro de seus filmes - tudo parece ter um tom abaixo do que já foi feito por ele, sem no entanto abrir mão da eloqüência. Acusado de diluição da própria obra, ou mesmo de ter realizado um Wong Kar-wai para dummies, a crítica deixou de notar o frescor e reatualização de seu cinema, evidenciados não só pelas novas parcerias mas, mais do que isso, ao subverter o lugar comum esperado de um visitante nos Estados Unidos. Wong Kar-wai foi lá e fez um filme em que não se tem a menor dúvida de ser seu - inclusive no tratamento dado à inflexão e extensão das falas, presentes mesmo em narrativas em off, outra de suas marcas autorais.

OLHAR EM CAMADAS
Novamente, o foco recai na própria imagem - o que, entre outras coisas, significa falar da própria experiência do olhar e do contar, algo que os personagens fazem o tempo todo - e suas potencialidades - claro, aspectos sempre levados por alguma história muito envolvente, capaz de pegar o espectador pelo arrebatamento dos sentidos - dos mais mundanos aos mais sagrados. O cineasta recorre a diferentes procedimentos para organizar em camadas o olhar e capturar a sensibilidade no cinema. Para além do alegórico, cada imagem de Wong Kar-wai entrega um universo de significados possíveis. Desde um (sub)texto rico na fala dos atores, até as precisas elipses do roteiro, além do recorrente anteparo entre o que está sendo visto e o significado final da cena, sempre há em suas narrativas algo que convida ao desvendamento - caso dos filtros de luz em Happy Together, das frestas e texturas em Amor à Flor da Pele e 2046, e o jogo com as letras na vitrine do café de Jeremy aqui. Elementos que contribuem pra o enlevo das sensações, enquanto assiste-se a personagens às voltas com os pantanosos meandros da sedução.

Norah Jones e Natalie Portman
Norah Jones e Natalie Portman
Outro grande trunfo de Wong Kar-wai, posto que o distingüe de boa parte do cinema feito hoje, é que a beleza jamais surge anódina e gratuita. Contra a sensação de assepsia e o "bom gosto" que graça em boa parte da produção contemporânea - ou o seu oposto, num certo desespero em tocar as emoções mais recônditas do espectador -, Kar-wai contrapõe uma (des)continuidade que coloca de escanteio a presumível linearidade da história, convidado a todos a olhar para o inferno pessoal de seus personagens. Assim, no caso de Um Beijo Roubado, há desde uma cartela enviesada a contar o tempo e as distâncias, bem como cenas da natureza em que aparece a revolução do sol, além do sinal vermelho para Arnie, até a evidenciada cena do sorvete a derreter pela torta, num close de tirar o fôlego e a explodir tela afora. Elizabeth, feita ora protagonista, ora coadjuvante - o que está no centro? O que reside à margem do olhar? Periferia, centro, nativo, estrangeiro, circunstâncias permutáveis de uma condição comum - a do humano, a do amor - escolhe o beijo e torna-se sujeito e cidadã do seu afeto após cruzar pelo seu submundo - real, simbólico - particular.

A transformação é possível nos filmes de Wong Kar-wai. Basta olhar para ela.

Flávio Aquistapace
Flávio Aquistapace (brunomantegao @ gmail.com)
comentários
Augustuzs Neto
Augustuzs Neto (06.06.08)
0AprovadoQueima
Tb não gosto do filme,começando pelo fato de Norah Jones não ter bagagem de atriz apesar do personagem exigir momentos de grande carga dramática.
Claro que Kar-wai não é qqr um, seu cinema é esteta, etéreo e de um romantismo chic, e filmes como In The Mood For Love e Happy Together são provas disso.
Road movie com direito a passagem por Vegas é muito óbvio.
As melhores coisas são Natalie Portman e David Strathairn, muito bem em seus papéis.
Ah sim, Rachel Weisz nunca esteve tão bonita.
donna_sc
donna_sc (14.05.08)
0AprovadoQueima
achei super lindinho o filme. em vários sentidos. :)
Livia Pereira
Livia Pereira (13.05.08)
0AprovadoQueima
amei o filme, AMEI
Malu Braga
Malu Braga (13.05.08)
0AprovadoQueima
A fotografia é muito bonita, mas não gostei. Talvez porque tenha colocado expectativa demais, achei um pouco frustrante. A resenha, porém, está ótima.
infatuation
infatuation (12.05.08)
0AprovadoQueima
adorabile!
proximos