Este documentário é um sincero e engajado tributo à visão do americano Mel Cheren (falecido no último dia 7/12), figura vital para a história da disco e, portanto, da dance music e da cultura DJ no geral.
É fato que Cheren é o produtor executivo e o filme se baseia em sua auto-biografia escrita,
Keep On Dancin'", então a abordagem tende a ser totalmente positiva. Mesmo assim, ninguém negaria que a sua biografia é algo que merece respeito e admiração.
Cheren foi dos primeiros na indústria musical a apostar na disco music e a acreditar na importância do DJ e da pista de dança como lançadores de novidades musicais; foi dos primeiros a apostar no formato do single 12", para DJs; fundou e dirigiu até recentemente o selo West End, uma das marcas mais reverenciadas da música para dançar; teve papel fundamental no Paradise Garage, a histórica discoteca underground onde os sets do residente Larry Levan elevaram o trabalho e a arte do DJ a um novo patamar, influenciando gerações seguintes. Cheren também foi dos primeiros a cobrar e agilizar um engajamento maior da indústria musical na luta contra a AIDS.
Dirigido por Gene Graham, o documentário tem entrevistas com protagonistas da história das pistas de Nova York como Nicky Siano, Danny Krivit, Marley Marl, Jellybean Benitez, Vince Montana, Ultra Nate e Joi Cardwell. Também tem muitas imagens dos anos 70, de Fire Island, do Paradise Garage e de Larry Levan.
A origem da disco em Nova York está totalmente ligada aos gays e isso é mais que evidente em
O Poderoso Chefão da Disco. É por isso que as únicas exibições do filme no Brasil até agora foram em eventos GLBT como o Festival
Mix Brasil. Mas, mesmo que Mel seja gay, vários entrevistados do filme sejam gays e o ponto de vista geral do filme seja de afirmação gay, esse não é um "filme gay".
Ele é, antes de tudo, um filme sobre música: o poder da música de mudar e dar sentido à vidas; seu papel como trilha da descoberta e da libertação; a relação apaixonada que algumas pessoas tem com ela; sua evolução técnica e estética.
O formato do documentário enfatiza isso ao pontuar a cronologia com as faixas mais significativas lançadas pela West End:
"Hot Shot", de Karen Young,
"Is It All Over My Face", do Loose Joints, "Heartbeat", de Taana Gardner. O único porém aqui é que a estrutura do filme é simples e convencional, talvez um pouco cansativa para quem não for particularmente interessado no assunto.
Porque é o assunto que segura o espectador aqui, não a mão do diretor, o roteiro ou a edição. Mais para o fim, por exemplo, a história ganha uma carga intensa e comovente, quando trata da época que a AIDS destroçou a comunidade clubber de Nova York, no início dos anos 80.
Em meio a tão pouca informação que existe na mídia sobre as origens da dance music e da música eletrônica (a morte de Mel Cheren, por exemplo, quase não foi noticiada), iniciativas como esse filme são bem-vindas, necessárias e esclarecedoras.