Dave Gahan - Hourglass
Vozeirão é o grande trunfo do vocalista do Depeche Mode em seu segundo álbum solo
23.10.07 15:45
Esperar que alguém lance um disco solo que não remeta à banda da qual faz parte há mais de 25 anos realmente pode ser pedir demais. Especialmente quando se trata de um sujeito cujo rosto e, mais ainda, a voz, são a marca mais forte dessa banda. Levando tudo isso em conta, há que se dar um desconto para Dave Gahan, o vocalista do Depeche Mode, que lança este mês seu segundo trabalho solo, Hourglass.
A impressão, inclusive, é de que ele não está assim tão preocupado em se afastar do que faz no DM - tanto que Hourglass não faria feio na discografia da banda -, mas sim que, depois de tanto tempo, sentiu uma certa necessidade de ter um controle maior e poder decidir (quase) tudo sozinho. Isso fica evidente inclusive em uma declaração em seu site, onde diz que "não sente tanto que a banda seja mais sua identidade e começa a sentir que tem sua própria voz".
Muito mais bem resolvido que seu primeiro solo, Paper Monster, de 2003, Hourglass mostra mesmo que Gahan evoluiu como compositor, lado quase inexplorado no Depeche Mode (em todo esse tempo ele só assina três músicas do último disco da banda, Playing the Angel, de 2005). As letras, por exemplo, mostram que ainda é meio difícil se livrar de tantos anos cantando sobre conflitos interiores e fantasmas pessoais, mas têm lá seu toque pessoal, como na bela "Down", que fecha o disco com o cantor confessando "I feel so old, down on the ground is where I'm bound to end up" ("eu me sinto tão velho, no chão é onde eu estou fadado a terminar").
Hourglass - conforme anunciado - é também mais eletrônico que o antecessor, mesmo em seus momentos mais calmos, como na climática "Insoluble" ou em "Endless", uma espécie de parente meio distante (e menos impactante) de "Personal Jesus". Mas são músicas como a poderosa e grudenta "Use You" e a linda "A Little Lie" - possivelmente as melhores do disco - que mostram que o maior trunfo de Dave Gahan ainda é sua inacreditável voz. Seja nas sílabas estendidas ("it's just a little liiiiiie..."), na comoção rouca dos refrões ou mesmo nos trechos mais contidos, é em momentos assim que as avaliações racionais caem por terra e dá até pra acreditar que só ter a chance de ouvir essa voz já justifica qualquer disco.
:)
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