Dos anos 70 aos dias de hoje, um guia dos grooves cósmicos
15.10.07 18:30
Fala-se muito hoje em space disco, e a presença de Lindstrom no TIM Festival deve deixar a pauta ainda mais relevante. Mas ao contrário do que muitos imaginam, a space disco não é um gênero novo que se inspira no passado e sim, um gênero que já existia e que foi ressuscitado.
Nos anos 70, o pop estava obcecado pelo espaço. David Bowie criou o alienígena Ziggy Stardust, bandas de "space rock" como Hawkwind e The Rockets embarcavam rumo ao infinito com longas faixas e funkeiros como George Clinton e Bootsy Collins encarnavam "pimps" de outra galáxia com naves espaciais no palco de seus shows. Nas bilheterias, estouravam filmes como o primeiro Guerra nas Estrelas e Battlestar Galáctica.
Natural que a disco também tivesse seu braço cósmico (e "cosmic disco" é outra maneira comum de denominar essa área). Afinal, espaço lembra futuro, liberdade, aventura, exploração do desconhecido e deixar o Planeta Terra para trás: tudo a ver com uma boa noitada na discoteca. Giorgio Moroder, que vinha pesquisando e usando sintetizadores intensamente, deu a largada nos grooves espaciais, futuristas e eletrônicos (até então, disco era tocada por bandas. A partir de Moroder, a banda começava a se tornar desnecessária na dance music).
A predileção da space disco por temas esotéricos e longas jornadas sônicas significava muitas vezes que um flerte com o rock progressivo estava logo ali, como no caso da montanhesca "The Hills of Katmandu", do Tantra. Jazz, dub, ambient e krautrock também entravam na lista de influências (e continuam inspirando os spacers atuais). Na outra ponta, havia disco-pop sem medo de fazer refrão grudento e abusar de imagens de cocotas de roupa prateada e pistola laser de plástico na mão como era o caso de "Spacer", da Sheila B Devotion (produzida pelo Chic) e da kitsch "Automatic Lover", de Dee Dee Jackson.
Como toda a disco, na virada dos 70 para os 80, a space disco se retraiu para o underground, sendo mantida viva através, principalmente, de produtores italianos e é aí que ela se confunde bastante com a ítalo-disco. O termo ficou guardado num baú até ser resgatado para classificar a música que uma nova leva de produtores noruegueses como Lindstrom, Prins Thomas e Todd Terje estava fazendo, levando as homenagens da nu disco de nomes com Metro Area e Chicken Lips para além da estratosfera. A
Arpeggios Na teoria musical, são as notas de um acorde tocadas em sucessão em vez de ao mesmo tempo. Num sintetizador, é quando você pega uma seqüência que faz dim-dim-dum-dum e faz ela virar di-di-di-dim-di-di-di-diim-du-du-du-dum-du-du-du-dum... ha! taí uma linha de baixo ou de synth de space disco.
Ashley Beedle Homem por trás do X-Press 2 e dos Ballistic Brothers ressurge no contexto cósmico com edits e produções fazendo linha direta com os anos 70.
Afro-Cosmic Sub-variante de nicho, surgiu na virada dos 70 para os 80, quando no norte da Itália, alguns DJs como Daniele Baldelli começaram a tocar sets misturando batidas étnicas e tribais com eletrônica experimental, que chamaram de afro-cosmic.
B
Black Devil Disco Club Produção mega-obscura do fim dos anos 70 que foi relançada ano passado e virou cult entre os apreciadores de grooves sombrios, esquisitos e alienígenas.
C
Celso Valli Produtor e compositor italiano por trás de duas naves-mães da space disco: "The Hills of Katmandu", do Tantra, e "Exalt", de Azoto. Fez também hits para projetos como Passengers e Macho.
Cosmic Hoffman Guitarrista alemão com cara de Frank Zappa cometeu, talvez por acidente, um clássico do gênero em 1982. O nome da faixa entrega logo: "Space Disco".
Charlie Mike Sierra Na França, nos anos 70, tinha uma leva de bandas de rock e funk fazendo jams olhando para as estrelas. Entre elas, esse povo aqui, com a safada "On the Moon" (faixa-título do álbum com um astronauta na capa).
Chicken Lips Houseiros com uma obsessão incurável pelas levadas mais transcedentais dos anos 70 e 80.
D
Daniel Wang Sino-americano que mora em Berlin e reza todos os dias no altar da disco.
DJ Harvey Inglês que foi um dos primeiros residentes da Ministry of Sound e é conhecido por seus edits, sets e produções com muita disco espacial.
E
Edits Na cultura do revival dos anos 70, os picotes (especialmente via Ableton Live) são um recurso valioso para se livrar de vocais datados e partes desnecessárias do arranjo, ou só para mudar mesmo a ordem dos fatores.
Emperor Machine Projeto de Andy Meecham, metade dos Chicken Lips. O álbum Vertical Tones & Horizontal Noise é uma bela coleção de electro-disco-house suja e atmosférica.
F
Freak Electrique Dupla holandesa que já lançou pela Clone e é responsável pela transcedental "Symphony Electrique", cuja versão mais longa tem 16 minutos!
G Giorgio Moroder O pai, o filho e o espírito santo. Através de clássicos como "I Feel Love" (produzido para Donna Summer) e faixas-solo como "From Here to Eternity" e "The Chase" implementou o sintetizador com força na dance music. De tabela, deu start na história de viajeira eletrônica e hipnótica na pista de dança.
Gino Soccio Canadense craque nas jornadas sintéticas mas sempre com uma boa dose de groove funk no chão para compensar. Ouça "The Visitors", "Dancer" e "Remember".
I
Idjut Boys Dois ingleses com paixão desmedida por disco music alternativa e que já lançaram por selos como Nuphonic e Disfunction. Editando, remixando e produzindo desde os anos 90, inspiraram os astronautas sonoros de hoje.
In Flagranti Dupla de nova-iorquinos fãs duma jam sintética, como a trash disco espacial de "Intergalactic Bubble" e o space bem-humorado de "Bipolar" e "Nonplusultra".
Italians do it Better Selo americano especializado em lançar bandas que fazem releituras de ítalo e space para os indies de hoje como Chromatics, Glass Candy e Farah.
Italo-disco Os italianos abraçaram o sintetizador com paixão e criaram até sua variação própria de disco music. Na virada dos anos 70 para os 80, com tanto arpeggio e sobrevôos de teclado, é comum as divisões entre space e ítalo se borrarem.
K
Kebekelektrik Projeto de Gino Soccio que produziu os cometas "War Dance" e "Magic Fly".
L
LEB Harmony Projeto de disco altamente sintética da França que lançou o álbum Disco Boogie, em 1978. Lindstrom Dos longínquos fiordes noruegueses, Hans-Peter Lindstrom mais Prins Thomas foram os responsáveis por botar a space disco na pauta do dia outra vez com faixas como "I Feel Space" e "Mystery Dub" e algumas faixas de seu excelente álbum It's a Feedlity Affair. Como sempre acontece nesses casos, faz questão de dizer que está fugindo do rótulo, adentrando o movediço território de faixas downtempo com guitarras épicas e chapadas.
M
Metro Area Formado por Morgan Geist e Darshan Jesrani em 1999, esse duo americano já ostentava a influência da disco cósmica em suas faixas, informando a cena escandinava que viria depois. Seu álbum de 2002, Metro Area, entrou até na lista da Rolling Stone americana como um dos melhores daquele ano.
Mock & Toof Um dos primeiros contratados do novo braço da DFA, o Death From Abroad. Chegados em incursões a planetas distantes em faixas como "Zomby", "Black Jub" e "K-Choppers" e já acumula cacife com remixes para Hot Chip, Scissors Sisters e The Juan Maclean.
Mungolian Jet Set Mas o que colocam na água de Oslo que faz surgir tantos freaks obcecados pela disco music psicodélica? Este pessoal aqui faz um som lânguido e lamacento, como nas faixas "It Aint Necessarily Evil" e "Clairevoyage".
N
Nick Chacona DJ/produtor de house e colunista da XLR8R já andou calçando as botas prateadas em várias ocasiões como em "Tonka", "The Next" e "Lagavulin" e seu remix com Anthony Mansfield para "Polo Club", dos Greenskeepers.
O
Orlando Riva Sound Gloriosa banda alemã dos anos 70 responsável pelo avançada "Moonboots". Ouça e encontre ali até elementos de minimal e electro-house.
P
Padded Cell Dupla inglesa que define seu som como "dark disco" ou "goth disco" mas que entrou em órbita com o single "Moon Menace", de 2006.
Patrick Cowley Produtor de Sylvester ("You Make Me Feel") e um dos primeiros produtores americanos a ir de cabeça nos synths. Alçou vôos grandiosos em faixas como "Menergy" e "Get a Little". Morreu de AIDS em 1982.
Prins Thomas Chapa de Lindstrom no relançamento do foguete "space disco" além de DJ e produtor altamente requisitado. Pilota o selo Full Pupp, por onde saíram discos seus, de Todd Terje e de Magnus International. Lançou há pouco a coletânea Prins Thomas Presents Cosmo Galactic Prism, pela Eskimo, onde liga os pontos entre house, minimal, techno, funk e space disco.
Putsch 79 Da Finlândia dois caras fazendo balés para patrulheiros espaciais dançarem onde não tem gravidade como o remix para "Meso Loco" (de Nick Chacona) e "Doin' It".
R
Rekids Selo inglês que aposta em grooves de house fora do eixo e já lançou coisas de Toby Tobias, Prins Thomas e Partial Arts.
Reverso 68 Os ingleses Phil Mison e Pete Herbert se conheceram no Café Del Mar em Ibiza e logo conectaram graças a sua obsessão por vinil clássico e flutuante. Logo, passaram a traduzir tudo isso para produções e remixes para gente como Badly Drawn Boy, Bent e The Juan McClean.
S
Slick Grupo autor do funk cósmico "Space Bass", um hit das pistas dos anos 70 e que foi parar também na seleção que Jeff Mills fez para a série de clássicos Choice.
Sheila B. Devotion Cantora do hit "Spacer", composto e produzido por Nile Rodgers e Bernard Edwards do Chic em momento que contemplavam estrelas cadentes.
Space Projeto dos anos 70 de nome bastante literal e que gostavam de se vestir de astronautas (veja o clipe abaixo). Cunhou o clássico "Magic Fly" (não confundir com a música de mesmo nome do Kebekelektrik).
The Spirals Banda paralela do pessoal do Silver City que lançou pelo Darkroom Dubs o álbum Without Control, um trabalho cheio de firulas cósmicas muito bem polidas.
Spirit Catcher Dupla belga que se consagrou fazendo requintados grooves com grande débito ao disco-funk e à disco orbital. No seu álbum Night Visions tem bons exemplos dos dois.
Sunkissed Clube de Oslo que serve como base para a turma space local. Faz pouco lançou uma excelente coletânea com a nata da região: Prins, Linds, Todd e promessas como Mungolian Jet Set e Magnus Orchestra
Supersound Selo inglês dedicado a reedições não-oficiais de faixas obscuras com boa ênfase nas cósmicas.
T
Toby Tobias O MySpace desse inglês o define como "Gino Soccio e Sly and Robbie fazendo um experimento científico no espaço". Nada a acrescentar!
Todd Terje Terceiro nome fundamental da máfia de Oslo. Produz edits num ritmo estonteante, de todo tipo de música dançante dos anos 70 e 80. Ouça sua odisséia chamada "Mjøndalen Diskoklubb".
V
Vocoder O sintetizador de voz era um hit entre o pessoal da space disco, especialmente nos anos 70.
GIORGIO MORODER na TV alemã mostra "The Chase" (1979)
SPACE - Magic Fly
ORLANDO RIVA SOUND - Moonboots
SHEILA B DEVOTION - Spacer
PATRICK COWLEY - Menergy
KEBEKELEKTRIK- War Dance
http://www.youtube.com/watch?v=uyDlVvTXt1U (embed não autorizado)
AZOTO - Exalt
LINDSTROM - I Feel Space (clipe não-oficial)
http://www.youtube.com/watch?v=Y1xRpTxuevU
LINDSTROM ao vivo na Sunkissed
PRINS THOMAS na Moo, no começo deste ano, tocando "Remember", do Gino Soccio