The Black Dog - Book of Dogma
Relançamento necessário de um ícone eletrônico esquecido cuja música falava igualmente aos corações e às mentes.
20.04.07 18:25
Muita gente dá risada quando se fala em techno "civilizado" e "inteligente", alguns até já querem partir para as vias de fato quando esse é o tema. Mal sabem que essa história vai mais longe do que se imagina, aliás já foi até um belo conceito de marketing. Foi em 1992. Naquele ano, o selo Warp (Aphex Twin, LFO, entre muitos outros) iniciava uma série chamada Artificial Intelligence, cujo primeiro volume trazia na capa uma figura robótica sentada numa sala de estar.
A idéia era se contrapor ao frenesi drogado do hardcore (o techno mais popular da época), oferecendo sonoridades mais serenas e experimentais. Foi nessa época que o termo "intelligent techno" começou a pegar, definindo grupos como Autechre, Orbital, Future Sound of London e o Black Dog, um trio que, injustamente, virou um completo desconhecido para as gerações posteriores.
A Soma vem remediar um pouco a situação com um lançamento que merece aplausos. The Book of Dogma é um CD duplo reúne faixas do três primeiros EPs do Black Dog, lançados entre 1989 e 1990 e o seu segundo álbum inteiro, Parallel, que saiu em 1995 (originalmente pela GPR).
Incrível como as melodias elaboradas, batidas precisas, arranjos inventivos e produção impecável soam atuais mais de 15 anos depois. E, mesmo sendo antigo, nada aqui é previsível. "Virtual" que abre o CD 1 é uma epopéia de quase 10 minutos que incorpora diferentes frases de teclados sonhadores, flertes com um piano house e programações de bateria que variam, ou seja, não enjoa nunca (difícil crer que esta faixa é de 1989). Do mesmo EP, "Ambience With Teeth" samplea Stevie Wonder em cima de um breakbeat que chacoalha mais que os ônibus que descem a Rua da Consolação.
"The Weight" traz mais quebradeira tensa e "The Age of Slack" paga tributo às raízes funk 70 do breakbeat, enquanto que "Tactile" muda os parâmetros e cai para território electro. "Techno Playtime", que abre o terceiro EP (já em 1990), segue por essa trilha, produzindo paisagens mais abstratas. "It Felt Like It" é um electro-break invernal, com seus teclados sombrios. "Seers & Stages" alterna pianos, órgãos e teclados techno.
No CD 2 saltamos alguns anos para o álbum Parallel e encontramos uma música menos áspera, mais melódica e mais cheia de truques de produção mas não menos intrigante e farta de idéias. "Squelch" tem teclado alegrinho (lembra até um pouco Bizarre Inc) fazendo jogo com linhas granuladas de synth. Se existisse uma banda tocando jazz no bar de Guerra nas Estrelas, o som seria parecido com "Erb". "Virtual Hmmm" homenageia Detroit com seus climas entre melancólico e angustiado. Já "Rainbow Bridge" e "Hub" oferecem bonitas ambiências.
O termo "inteligente" parece restrito demais para essa música. O Black Dog consegue extrair tantos estados de espírito e sugerir tantos climas com seus synths e programações que sua música está anos-luz acima de um frio exercício cerebral. Inteligência emocional em forma de música acho que fica bem mais apropriado.
Estou comprando o meu já!
Mas para quem tem um pouco de ouvido musical, vai perceber que existem sets de techno repetivos e iguais.
E sets bem trabalhados, dai essa polemica de vertentes.
Exemplos de techno inteligente-o otimo Sven Vath, com seu estilo eletrotech, Phil Kieran, Tim Taylor e John Tejada.