Burial - Burial
08.08.06 15:00
O hype tem destas coisas: mostra-nos o que, invisível aos olhos dos incautos, está guardado numa editora obscura. A Hyperdub, casa mãe de Kode9, tem como bandeira o dubstep. O cenário urbano tem como base Londres e a neblina está presente no disco sob forma de sonoridades mais sujas com ecos que partem de alguns ruídos citadinos. Não tenham dúvidas: a cidade existe neste disco homónimo de Burial.
O anonimato de Burial alimentou a curiosidade de quem ouviu este disco. No entanto, a mente por trás deste disco não omitiu um fato que valoriza a realização de um trabalho musical hoje em dia. Burial trabalha apenas com um computador e software gratuito, à imagem, salvo seja, de Mylo.
Os temas incluídos em Burial são uma coleção de faixas datadas entre 2001 e 2006, mas têm uma linha comum, o que permite homogeneizar o disco com uma ou duas exceções. O início, após uma introdução curta, dá-se com "Distant Lights", um exercício belo de pesar, frieza e desespero. As linhas de baixo funcionam independentemente da parte rítmica, o que quase dá a sensação de se ouvir duas músicas em simultâneo. As vocalizações raras - são, invariavelmente, fantasmagóricas como em "Spaceape" (segunda faixa) com a participação do MC Spaceape, "Gutted", "Broken Home" (Uma ótima música). O ambiente dos temas neste disco citadino é complementado com diversos efeitos sonoros, o que caracterizam as músicas de uma forma diferente daquilo que falámos até agora. Por exemplo, em "Night Bus" ouvimos a chuva, que juntamente com a inexistência de batida, leva-nos para um campo francamente ambiental. Apesar do dubstep não ser abertamente dançável, temos em "Southern Comfort" e "U Hurt Me" as melhores aproximações à pista de dança. O componente rítmico mais formatado e rígido aparece em "Prayer" (que nos lembra, de certa forma, "Angel" dos Massive Attack), fílmica e enevoada.
Burial é um disco muito interessante, onde o obscuro mais cinematográfico e citadino se encontra com a música eletrônica condimentada com sons acidentais trabalhados e com vozes atormentadas que sucumbem numa escuridão muito própria dos subúrbios londrinos.