Quem vê o DJ Eneas Neto tocando Olivia Newton-John todo sábado na famosa festa
Trash 80s em São Paulo talvez nem imagine que ele foi um dos principais nomes da música eletrônica nacional, produzindo um programa de rádio inovador (o Zensor, da 97 FM), a gravadora Cri du Chat, fazendo festas em clubes lendários de SP como o Retrô, e criando o site
Fiber Online, especializado em catapultar nomes nacionais de todos os gêneros e sub-gêneros da eletrônica - e que este ano, assim como o
rraurl, completa seu décimo-primeiro aniversário.
Eneas pode facilmente ser considerado um daqueles dinossauros da noite paulista e também da eletrônica
made in Brazil.
"Pra mim, o fim dos anos 80 e o começo dos 90 foram os mais ativos em termos de noite. Discotecava praticamente todos os dias, tentando equilibrar com a vida diurna, o que ficou impossível. Tive que "criar" um emprego, no caso, loja de discos. Comecei em casa de amigos e depois me enfiando no Satã e no Ácido Plástico. Fui residente da domingueira da Boatinha do Tênis Clube, em Santo André, que equivaleria ao que o Grind representa nos domingos de São Paulo. O povo se jogava de sexta e sábado em São Paulo, mas ir pra Santo André no horário da matinê era sagrado, já que o som era alternativo, coisa rara naquela época. Depois disso, toquei em dezenas (talvez centenas) de clubes e locais diferentes. Não lembro qual foi a primeira festa que toquei, mas com certeza deve ter sido em alguma garagem."
Seja como um DJ de música eletrônica, festeiro profissional ou um "pastor trasher" (como é chamado pelos frequentadores mais assíduos da festa), Eneas Neto comemora o aniversário do Fiber conversando com a gente.
Você já frequenta a noite de São Paulo há muito tempo, muitos dizem que você foi um dos principais responsáveis por trazer o new beat, a EBM e o industrial pra cá.... Como começou o seu interesse pela música eletrônica?
Meu interesse é tão longínquo que nem se falava em "música eletrônica". Minha irmã mais velha adorava discoteca nos anos 70 e lembro de vários discos que ela tinha. O que mais me atraia eram a batida e os "barulhinhos" que traziam. Depois descobri que eram gerados por teclado e comecei a gostar de sons mais sintetizados.
Ainda no campo da idade avançada, sou do tempo que não existiam tantas divisões assim. Lembro que
Colourbox,
Housemartins e
Skinny Puppy eram figurinhas do armário que a gente tinha no Satã pra discotecar (isso antes dos discos sumirem de lá). Com isso, era fácil integrar os "eletrônicos" aos mais elétricos e acústicos. Como meu interesse maior sempre foi os timbres eletrônicos, comecei a pesquisar mais, me envolver em lojas, montar um programa, gravadora e, dessa maneira, ajudei de alguma maneira a divulgar estilos mais alternativos como synthpop, industrial, EBM, new beat, entre outros.
O Zensor foi um programa de rádio inovador, tocando um som eletrônico bem underground numa rádio que era basicamente de rock, e numa época em que muitos ainda torciam o nariz pra música eletrônica. Quais eram as principais dificuldades que você encontrava e quais foram as suas maiores realizações pessoais produzindo o Zensor?Bandas que tocavam
sempre no Zensor
Nitzer Ebb
Vomito Negro
Simbolo
Cassandra Complex
Placebo Effect
Front 242
Klinik
The Neon Judgement
Skinny Puppy
O programa foi um divisor pra 97FM. Dá pra imaginar que uma rádio que tem hoje a programação voltada para música eletrônica dançante, rejeitava um programa assim? Na verdade, o Zensor foi hibrido durante os primeiros meses. O Ricardo Bola, com quem em tocava no Tênis, fazia a parte "rock" do programa. Com o aumento de público para o lado "eletrônico", ele criou um só para as guitarras, chamado "Rough". A partir daí, o Zensor se tornou uma plataforma de lançamento para quem produzia música eletrônica. Muitos produtores de hoje tiveram suas músicas executadas pela primeira vez no programa.
Como surgiu a ideía de montar o Fiber?O Zensor acabou em 94, saí da Cri Du Chat - a gravadora - em 95. Queria dar um tempo de música. Fui trabalhar com Internet, que estava começando. Não demorou muito para eu perceber que dava pra falar de música usando uma plataforma eletrônica. Em julho de 97, criei o FiberOnline que era a extensão do meu trabalho anterior, de divulgar novos projetos. No começo não tinha muito foco, exceto que o que importava era falar sobre música eletrônica, mas em 99 com o contrato com o UOL passou a ser um portal para produtores hospedarem suas músicas. Sim, há nove anos já existia MP3 e programas de P2P, com conexões péssimas, claro.
O FiberOnline é focado em produção nacional. Temos alguns gringos, mas nosso interesse é quem faz as coisas por aqui. No começo, produzir algo de qualidade era caro e difícil. Muitos optavam por programas simples que deixavam as músicas todas com a mesma sonoridade. Outros tinham muito equipamento mas não conseguiam produzir pois não havia referência. A troca de informação entre os projetos fez um balanço bacana e hoje o que temos nos site são trabalhos até mesmo "profissionais". As aspas são uma referência ao padrão de mercado, já que gravação digital hoje em dia pode ser feita sem gastar muito.
Com relação aos estilos, o que eu mais gosto é de perceber que nada fica parado. Vem, vai e volta. O ciclo criativo é sempre importante e acompanhar os trabalhos das bandas e produtores ao longo dos anos é o que nos motiva a continuar a fazer um site desses.
Quando você montou a Trash 80s, o povo do meio eletrônico ficou muito no seu pé, dizendo que você tinha 'virado a casaca'??? *rs*A Trash 80's surgiu pra exorcizar meus demônios, numa festa de aniversário. Dois DJs do "undergrudi" tocando bagaceiras nacionais e internacionais.
Óbvio que fomos alvos de chacota. Muitos acharam que a gente queria só ganhar dinheiro e tal, mas não sabem que quem pagava minhas contas era o trabalho ligado à Internet e não aquele provido de festas bacanas e alternativas. Acho que sempre consegui conciliar muito bem os dois lados. Eles se complementam, já que todo mundo tem um quê de cafona.
Você também tem uma empresa que produz conteúdo multimídia e websites para terceiros. Você se considera um geek?Sou nerd mesmo. Muito. Tinha todo o estereótipo inclusive: óculos, gordinho, tímido, CDF... Adoro tecnologia, vivo isso o tempo todo. Sempre tem um gadget que considero "fundamental" naquela semana. A Fiber Interactive tem um posicionamento voltado a presença online e talvez reflita exatamente esse meu lado "cyber". Mais do que a própria música que ouço.
O QUE ESTÁ TOCANDO NO IPOD DE ENEAS HOJESantogold and Diplo - "Guns of Brooklyn" (Doc and Jon Hill Dub)
Greg Cerrone - "Bullit" (Miles Dyson Remix)
Get Well Soon - "Born Slippy" (Nuxx)
Division Kent - "Offshore" (The Phantom's Revenge Remix)
Das Pop - "Underground" (Van She Club Mix)
Booka Shade - "Charlotte"
Bloc Party - "Mercury" (Telemitry Remix)
Crystal Castles - "Halcyon" [Crystal Castles vs In Digital Form]
Neon Neon - "Raquel"
Does It Offend You, Yeah? - "Weird Science"
Parabens por tudo Enéas e boa festa hoje pq o Fiberonline realmente merece.