DJ e organizador fala das músicas e da história da domingueira mais famosa da cidade
Se você já se deu por perdido num domingo a noite em São Paulo, ansioso por música, pista cheia, todas as variáveis pensáveis (e inimagináveis) da diversidade sexual humana e (outros inimagináveis) afins, são grandes as chances de você já ter caído no abismo antropológico que é a festa Grind, n'A Loca, uma das domingueiras mais famosas que a cidade já teve.
Criado em 1998 como matinê rocker GLS de EBM, rock gótico, hits dos anos 80 e barulheiras industriais emitidas pelos CDs do residente/idealizador DJ André Pomba, a festa era para pouco mais de 100 pessoas (a maioria VIP), e durava das 19h até às 23h, com os próprios freqüentadores se revezando como DJs. "Havia muitos adolescentes, muitos se descobrindo musical e sexualmente", lembra Pomba.
2008 = POP, POP, POP...Mais que uma festa, surgia um microcosmo cultural na noite paulistana, então dominada pela música eletrônica: uma semente do revival dos anos 80 que só surgiria com força dois anos depois e que dura até hoje; o Grindzine a espalhar informação da música alternativa; as performances, inúmeras, para muitos os momentos mais aguardados do Grind; fora verdadeiros personagens da noite como Michael Love, o cachorrinho do dono do clube, o segurança Régis, o próprio Pomba e qualquer outra pessoa que, com sua turma, causou e/ou deixou lembranças na pista mais cavernosa da cidade.
Hoje a festa completa 10 anos como um epicentro profissionalizado da noite de paulistana, evoluído musicalmente mais para o pop (que no começo era abraçado por ser possível dentro da música
queer) do que a eletrônica, numa noitada que por vezes chega às sete da manhã de segunda. Vésperas de feriado então, a fila dobra a esquina do não menos famoso bar d'A Loca (aka Madureira).
Como todo projeto/festa antiga, tem os saudosos que acham que "o Grind não é mais o mesmo". Conversamos com o André Pomba para a seção
CASE sobre isso, e ele fala ainda das músicas, da história e do significado do Grind na boemia clubber de SP, confira.
Quais as idéias e pessoas por trás do surgimento do Grind? E o nome, de onde surgiu?A idéia do Grind surgiu depois que conheci um barzinho de rock GLS em San Francisco em 1997,m e lá mesmo caiu a ficha já que vários frequentadores da A Lôca curtiam rock. Lembro até que o DJ Ednei tocava uns sons dos anos 80 no final das suas discotecagens, atendendo a pedidos. O nome Grind surgiu inspirado num pôster que tinha no meu escritório do single "Grind" do grupo grunge Alice In Chains. Eu tinha pensado em vários nomes, mas nada... Quando vi esse cartaz, disse pra mim mesmo: aí está o nome!
Flash Content
Alice In Chains - Grind (mp3)
Acho que a festa contou principalmente com o apoio do nosso grupinho rocker do início da A Lôca, eu, Alisson Göthz, Michael Love, Christian F, e os divulgadores Gloob e Ricardo Tiamat. E, claro, à própria A Lôca, principalmente do promoter Nenê, que convenceu os donos a apostar no improvável: uma festa de rock (que na época era

dado como morto) no meio GLS.
Aos poucos também fomos indo até 2 da manhã e o povo pedindo mais. Aí nas férias de julho de 2001, o Anibal (dono da A Lôca) disse pra irmos até 5 da manhã. E de uma hora pra outra, dobramos de público! Era como se fossem duas baladas em uma, a matinê indo até meia-noite e outra balada até 5 da manhã. Quando acabou as férias, achamos que ia miar, mas foi o contrário, o boca a boca fez com que cada vez viesse mais gente e encerramos o ano quebrando a barreira de 1000 pessoas, algo inimaginável prum projeto que tinha tudo pra dar errado e durar pouco.
O flyer de dez anos do projeto diz que o Grind "revolucionou a noite paulistana". Comente um pouco esta afirmação.Acho que talvez, pra quem conheça o projeto de hoje, não sabe todo o trabalho embrionário que foi feito. A primeira vez que sentimos a importância do Grind foi quando o site Mix Brasil disse (acho quem em 2000) que éramos o mais inovador da noite em nossa época e fomos indicados ao troféu Noite Ilustrada da Érika Palomino. Em 1998, o rock era dado como morto, a cena GLS era dividida entre o techno e o house, os domingos eram tidos como um dia miado, existia um culto ao DJ que sabia mixar e usar vinil, os anos 80 ainda não tinha experimentado o revival, o indie rock engatinhava como cena...
O Grind chegou e foi derrubando sem querer querendo, um a um vários mitos, mas talvez o principal seja que, diferentemente da tendência 'normal' sectária, pela primeira vez era possível você ouvir vários tipos de sons e estilos numa balada e pela primeira vez os próprios freqüentadores mandavam seu set list e também assumiam as picapes (e nós o risco, heheheh). O Grind virou meio que a base de uma árvore genealógica, que gerou e influenciou vários outros projetos na noite pelo Brasil afora. Você pode até não concordar com a afirmação de 'revolução', mas não tem como negar a importância do Grind entre vários outros projetos que escreveram a história da nova noite paulistana desde os meados da década de 90 até hoje.
Os "grinders" antigos reclamam nostalgicamente do tempo que a festa era só matinê, que tinha um 'conceito' mais 80s, goth e industrial... Para muitos hoje é só uma noitada mix, com um exagero de música pop. O que você acha disso?Todos têm direito a ter saudosismos, mas temos que ir em frente. O Grind é uma balada que sempre foi a cara dos seus freqüentadores, tanto que vários deles já tiveram sua cota de DJ por uma noite. Antes a gente formava público, mas este mesmo público acabou migrando pra outras baladas mais específicas. Ao mesmo tempo, o Grind ficou mais 'pop', porque o público de outras baladas que viam A Loca com certo preconceito (que ainda perdura de certa forma) passaram a freqüentar o projeto.
Mas eu me lembro bem quando ainda no final de 98, fiz uma pesquisa perguntando o que o povo mais gostaria de ouvir na balada. A resposta: Madonna... A partir de então, a gente sempre primou pela diversidade musical, indo de Britney Spears a Marilyn Manson. Também acho que o Grind está mais pop do que deveria, por isso sempre impomos às vezes sons mais alternativos pra o povo ir digerindo.
Quais foram os principais momentos da sua carreira pessoal, em sua opinião?Não saberia dizer se foram os momentos principais, mas me ver tocando o meu som (mais conhecido como Pomba-hits) em festas como a da joalheria Jack Vartanian no Shopping Iguatemi, a do fotógrafo Mario Testino no Copacabana Palace, ou na inauguração da loja do Ocimar Versolatto em Ipanema é algo que realmente nunca imaginaria em se tratando de alguém que veio da cena underground.
Cite um top 5 com as músicas mais históricas do Grind.Um top 5 é complicado de depurar, mas vamos lá: "Freedom" (George Michael), "Living La Vida Loc"a (Ricky Martin), "Candy" (Iggy Pop), "Bizarre Love Triangle" (New Order) e "Celebrity Skin" (Hole).
De todas as músicas, cite uma que é a mais identificável com a noite.Acho que as cinco citadas acima são a cara do projeto, mas creio que "Freedom" é a que mais sintetiza o Grind.
George Michael - Freedom 90sQual a música antiga mais pedida? E das músicas novas agora em 2008, qual tem feito bastante sucesso?A música mais pedida até hoje é sem dúvida "Candy" de Iggy Pop. Das atuais, sempre as novas de Britney Spears, Madonna, Rihanna e Kylie Minogue são as que mais tem bombado.
Tem algum tipo de música ou estilo que não faça sentido algum ser tocado no Grind?Apesar de já até ter DJS que tocaram lá, acho que trance e todas suas variantes não são o tipo de som que faz a cabeça do pessoal.
Você costuma espantar o povo no final do Grind com músicas como "vai tomar no cu" e Ricky Martin, fale um pouco mais desse repertório...(risos) Quando acende a luz, vale tudo e é bem divertido. Ricky Martin, Thalia, Gretchen, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Calipso, É o Tchan, Macarena... O espírito nem é bem de 'espantar' e sim acabar de forma bem engraçada!
O que você acha do revival dos anos 80? Saudável e divertido, ou exagerado?Acho saudável, divertido e exagerado (hehehe).
Quais seus artistas prediletos quando você está completamente fora do mundo d'a Loca?Queen (amo de paixão), Stone Temple Pilots, Garbage, Duran Duran, Nirvana, Smashing Pumpkins e pra não esquecer minhas raízes metal Iron Maiden e Metallica.
Fotos: Felipe Moreira
O sobrenome Pomba é artístico ou próprio mesmo?
Ao som de pomba-hits, já vi muito hetero sair bi. Todas têm histórias de grindianas pra contar. Parabéns!