Princeton faz rock acadêmico
Novo EP da banda californiana é inspirado em grupo intelectual inglês
14.05.08 16:20
O rock acadêmico parece estar em alta nos Estados Unidos. Enquanto grupos como o Vampire Weekend (da Universidade de Columbia) já escancararam seu próprio caminho para o sucesso, bandas menores dão duro para chegar lá - mas sem cair no pop supérfluo de alguns contemporâneos. O Princeton é um bom exemplo desses últimos, e também de como o indie pode dialogar com temáticas elevadas sem cair na pieguice pura.
O segundo lançamento do trio, Bloosmbury, tem como tema o grupo homônimo de intelectuais ingleses que tinha entre seus membros o economista John Maynard Keynes (quem não se lembra das aulas sobre keynesianismo?). Economia, poesia e literatura, todos abordados através de óticas pessoais e musicados por uma sonoridade que lembra fácil Belle & Sebastian.
Fãs de música brasileira, os garotos do Princeton ainda esperam sua vez para estourar. Enquanto isso não acontece, eles aproveitaram para responder por e-mail uma entrevista para o rraurl.com.
O Princeton é um grupo que encara a música através de uma perspectiva mais intelectualizada ou o EP Bloomsbury deve ser um caso isolado?
Matt: Geralmente fazemos música que refletem as coisas em que estamos interessados no momento. Durante o período em que escrevíamos as músicas para esse EP, Jesse e eu estávamos lendo muito material que lidava de alguma maneira com os membros do grupo de Bloomsbury. Pareceu natural escrever sobre essas pessoas em nossas músicas, mas se você olhar para as letras verá que elas abordam esses intelectuais como pessoas comuns com problemas emocionais, memórias e sentimentos.
Então não foi exatamente a natureza intelectual do assunto que nos levou à idéia, mas a proposta de fazer um EP com histórias e vidas conectadas. Jesse, Ben e eu somos muito atraídos pela idéia de fazer discos conceituais e encontrar uma guia entre as músicas. Alguns dos meus álbuns favoritos são conceituais - Village Green Preservation Society, dos Kinks, Melodie Nelson, de Gansbourg e Paris 1919, de John Cale. Então eu tenho certeza que Bloomsbury não será o único disco conceitual que faremos. Sobre o componente intelectual, acho que poderia aparecer em outras músicas e coisas que fazemos, mas depende muito de quando capta nosso interesse. No momento estamos muito interessados em lulas gigantes.
Como vocês chegaram à idéia de fazer um disco baseado no grupo de Bloomsbury?
Jesse: Há cerca de nove meses, eu e Ben estávamos nos formando e discutindo como deveríamos fazer nosso primeiro lançamento. Inicialmente queríamos fazer um LP, mas logo cheguei à idéia de um EP. Matt estava apreensivo com isso, porque ele achou que EPs podem ser apenas um monte de faixas desconectadas. Com isso em mente, tivemos a idéia de um EP conceitual e isso nos forçaria a compor um trabalho coerente e interessante. Já tínhamos escrito duas faixas incidentalmente sobre o grupo e Matt estava imerso em Keynes na época, então ele nos apresentou a idéia e demos cabo dela.
Vocês citam em seu MySpace que Força Bruta, do Jorge Ben, é uma de suas influências. Como vocês conheceram o trabalho dele? Gostam de outros artistas brasileiros?
Matt: Enquanto eu vivia em Londres, há alguns anos atrás, havia uma exibição no Barbican (excelente biblioteca/sala de cinema/museu britânico)* sobre a Tropicália. Naquela época, comecei a ler sobre Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes, Gal Costa e um punhado de músicos brasileiros. Peguei todos álbuns dos Mutantes enquanto eu trabalhava na Arthur Magazine do editor, Jay Babcock.
Ele tinha todas essas músicas maravilhosas e eu realmente aprendi muito pesquisando em sua coleção. O Tropicália, do Caetano foi grandioso pra mim, assim como Gil e Jorge. Aquele álbum me apresentou a Jorge Ben, e quando Jesse comprou Força Bruta, foi a primeira vez em que pensei que nós realmente poderíamos aplicar algumas técnicas de produção brasileiras às nossas músicas. O modo com que as cordas soam, que a voz dele soa - é tão claro e perfeitamente produzido... Realmente nos guiou quanto tentamos gravar coisas.
Você acha que o indie está passando por uma fase "acadêmica" nos EUA, absorvendo elementos de outras culturas através de uma perspectiva mais intelectualizada e se aproximando da Academia (como os caras do Vampire Weekend)?
Jesse: Boa pergunta. Acho que nesse momento algo popular na música é criar algo com elementos "globais". Não acho que haja algo particularmente acadêmico nisso, no entanto, essa é uma tendência da mesma maneira que o pós-punk foi ressuscitado há alguns anos. Então não acho que a música tenha se tornado mais acadêmica - sempre houve esse tipo de empréstimo cultural. O Vampire Weekend parece estar operando de uma maneira bem particular - eles escrevem excelentes músicas pop e as pessoas parecem responder a elas, mas eu não vejo outros grupos como eles surgindo por esses dias.
Outro pensamento é que eu não acho que acadêmicos se tornarão muito populares, principalmente porque para estar dentro, você precisa ler e estudar, duas coisas que a maioria dos americanos não gosta. Talvez se toda informação estivesse na Wikipedia, as pessoas gostariam, mas compor sobre algo que você pesquisou e estudou leva muito tempo.
Tendências aparecem quando algo se torna notável e pode ser imitado. Um bom exemplo que me vem à cabeça é como Sufjan Stevens. Suas músicas são incrivelmente profundas e intrincadas, e quando ele se tornou popular, de repente muitos cantores e compositores estavam aparecendo com um som similar. Mas se você olhasse bem, as letras passavam longe de ser tão rigorosas como as dele, e isso apareceu no fim das contas.
Como foi escrever uma música sobre J. Keynes? Não parece ser um trabalho tranqüilo.
Matt: No verão passado, eu estava lendo a biografia do Keynes escrita por Robert Skidelsky como uma pesquisa para um trabalho que eu tinha que fazer para completar minha graduação em economia. O trabalho era sobre sua ideologia política, e durante minha pesquisa eu fui encontrando histórias maravilhosas sobre sua vida pessoal, a maioria surgida de cartas e correspondências que ele mantinha com amigos e amantes. Já que o trabalho não lidava com nenhum desses assuntos fascinantes, eu cheguei à conclusão que compor uma música seria uma boa alternativa para eu explorar os assuntos pessoais de Keynes.
Eu sabia que a música teria que ter algo a ver com suas relações românticas e identidades contrastantes que ele teve em duas metades de sua vida - quando jovem era homossexual e mais tarde se casou com a bailarina Lydia Lopokova. Ele era um gênio da economia que, com o passar do tempo, se tornou um ícone mundial. Mas ele era um indivíduo emocionalmente complexo cuja vida foi obscurecida por suas grandes conquistas. Eu simplesmente queria escrever algo que falasse sobre sua personalidade, de sua perspectiva.
Vocês se sentem preparados para um eventual hype sobre a banda? Para essa vida de tocar em grandes festivais e coisas assim?
Ben: Eu não acho que a banda vá sair de uma moita com um grande chapéu de guarda-chuva e dizer "booyah" para o mundo, se é o que você está perguntando. Estamos trabalhando duro desde o começo e aprendemos que temos que criar oportunidades, e esperamos que valha a pena. O próximo grande passo pode acontecer cedo ou tarde, mas quem sabe? Nós queremos manter nosso foco e somos bem neuróticos, então estamos sempre céticos e insatisfeitos como as coisas, mesmo se forem boas.... Acho que isso nos ajuda a manter a cabeça no lugar, senão ficaríamos loucos.
Quais são seus próximos planos e lançamentos?
Ben: Após o lançamento de Bloomsbury, nosso principal foco estará em nosso primeiro LP, que reunirá músicas que escrevemos desde o começo do Princeton. Depois do álbum, planejamos gravar outro EP conceitual baseado em um novo tema. Nos divertimos bastante com essas coisas, então devemos fazer muitos mais! Também arrumamos uma máquina filmadora antiga para começar a filmar alguns esboços relacionados com o Princeton, então fiquem atentos!
Já pensaram em tocar na América do Sul?
Adoraríamos tocar na América do Sul, mas no momento não podemos pagar os custos de uma viagem. Espero que esse artigo gere uma legião de novos fãs do Princeton no Brasil que nos permita ir tocar em alguns concertos.
* A observação é do entrevistado.
Marina, proselitismo de um lado e pedãncia do outro... então esse é o balanço final, ao q parece.
Para vc, so uma musica dpo Glenn Underground: House Music Will Never Die.