Coachella 2008: Impressões
Cena corrente: montanhas, céu azul, palmeiras, tendas, instalações e muvuca
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Coachella em fatos, fotos e personagens
06.05.08 15:10
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Coachella 2008: Impressões
De como o Coacha é reflexo de um bom (e efêmero) momento dos palcos americanos
06.05.08 12:40
O olhar era de estrangeiro, mas o feedback diário e as experiências passadas nos ajudaram a sentir o peso do Coachella Valley Music and Arts Festival. Foram três dias de festa, cinco palcos, quase 150 atrações, uma barraca de camping (com wifi capenga) e temperatura média diária de 36ºC no festival que, como já dissemos, resume bem o espírito exagerado dos americanos. Mas só essa megalomania poderia criar um dos festivais mais versáteis e comentados dessa década.

Porque misturar Roger Waters (fazendo o show do clássico álbum Dark Side of The Moon) com Kraftwerk, Jack Johnson, Raconteurs e Portishead não é para qualquer um - custa caro e requer muito espaço, algo que os US$ 17 milhões, 50 mil freqüentadores diários e 100 acres do terreno do gramadíssimo campo de pólo gigante do Coacha podem bancar. O folclore meio Disney-indie-raver que o festival proporciona não é mera frescura: o gramado, por exemplo, é essencial para um local de sol a pino das 07h às 20h e 2% de umidade por horas a fio. Inimaginável no cimentão batido e urbano de um local tipo, humm, Anhembi?

1ª edição
1ª edição
As raízes do Coachella surgiram em 1993, quando Pearl Jam e Tool se apresentaram na desértica área de Indio, sul da Califórnia. Seis anos depois surgiu o Coachella que conhecemos hoje, em estréia receosa e sem camping, um trauma após o desastroso retorno do Woodstock, também em 99, que acabou em vandalismo, destruição, bandas cancelando gigs e focos de incêndio por todo o lado.

O turning-point que fez do Coachella o monstro imponente de hoje veio da idéia de reunir bandas antigas (como Pixies ou Rage Against the Machine), trazer a tona queridas velharias (como Prince e Roger Waters esse ano) mostrando junto o que acontece no universo musical altermativo. Não é a música per se, é a série de incrementos/acontecimentos que vão de instalações artísticas, jogos in loco , um público disposto a dar e receber a melhor "experiência Coachella" possível junto com os fatores musicais únicos nos palcos a cada ano ano. Como surpresas (Madonna e Daft Punk em 2006; Prince em 2008) e reuniões inusitadas.

É justamente esse é o problema latente, como Perry Farrell, organizador do clássico Lollapalooza e mentor do Jane's Addiction explicou em (ótima) entrevista sobre festivais norte-americanos na revista Spin de maio: "Hoje você volta aos anos 80 e até 60 para bookar os headliners (...) As bandas de hoje vivem uma popularidade imensa, instantânea, enquanto no passado grupos indie eram headliners desconhecidos de um Lollapalooza", comenta, alertando que em sete anos, com essas condições, não haverá mais bandas velhas para reunir. "É como o aquecimento global. O reservatório de água está cada vez menor."

EUA - IMENSIDÃO
Mas os americanos são espertos e resolverão essa questão bola-de-cristal, que pode ser relativizada com o argumento de que não só os festivais, mas a própria música será completamente diferente em cinco ou sete anos. Quem duvida?

O PORCO PERDIDO
Durante a apresentação de Roger Waters, domingo a noite no imenso Coachella Stage, o porco de plástico inflável gigante e voador que ilustrava a canção "Pigs" se desprendeu e saiu voando pela região do Deserto da Califórnia. O balão-porco foi encontrado dias depois numa região residencial a poucos quilômetros da área do festival, rasgado e espalhado sobre duas casas vizinhas. Seus moradores dividirão US$ 10 mil e ingressos vitalícios para o Coachella, oferecidos como recompensa pela organização do festival. No porco estavam escritas frases como "Obama" e "Fears Build Walls" (O medo constrói muros). E não foi o único acontecimento bizarro do Coachella: procure no youtube por "Coachella Cyclone" para ver ciclones de areia e lixo assustando o público.
E o Coachella, em termos locais, é o principal evento da polpuda Costa Oeste norte-americana, um marco importante no novo e prolífico roteiro de festivais que surge a gosto do público local, nos moldes europeus. Se no velho continente as curtas distâncias, viagens baratas e Euro farto justificam a seqüência de eventos, nos EUA o dinheiro ainda mais farto e uma cultura bem abastecida em todos os focos urbanos do país - Lollapalooza e Pitchfork (Chicago), All Points West (NYC), Bonnaroo (Tennessee e sul), Virgin (Baltimore) SXSW e City Limits (Austin e Texas) - fazem o Tio Sam ser uma opção mais acessível, pela língua (vai em um festival na Dinamarca para ver) e o dólar cada vez mais capenga.

Todos essas evidências, fatos e cifras nos levam a uma simples constatação: não é hoje e provavelmente não será tão cedo que o Brasil verá um festival dessa proporção. Pouca grana de poucas empresas interessadas nesse mercado (e com a visão cultural disso tudo), uma incerta época anual para a realização de tal evento, as longas distâncias e uma questionável demanda de público fazem com que nós ao menos agradeçamos a Deus pelas companhias de telefonia celular que temos.

DAS ATRAÇÕES
Como já dito, o Coachella privilegia e destaca o rock à eletrônica mainstream de Prodigies, Massive Attacks e Kraftwerks da vida. Basta olhar os line-ups antigos e o mapa de atrações da edição 2008. Mas há público para os beats, e a tenda Sahara, espaço nu e cru da eletrônica, ficou cheia de jovens indivíduos quimicamente alterados e outras figuras quando se tratava de DJs, e abarratodas e deslumbradas quando se tratava de artistas eletrônicos mais elaborados além-Technics (Hot Chip, M.I.A., Justice e Chromeo, por exemplo). Um sinal dos tempos.
Equipe RRAURL, cansada e orgulhosa após três dias de trampo e festa
Equipe RRAURL, cansada e orgulhosa após três dias de trampo e festa

Com dois palcos e três tendas com shows non-stop de 50 minutos, é o típico festival "iFest", como a matéria da Spin brincou bem. O legal é, assim como o shuffle do seu iPod, se dar o direito de experimentar sem ordem definida, ver 10, 15 minutos de cada banda que atravessar seu caminho. Nós mesmos, por exemplo, não tivemos tempo a perder com o azedume de Goldfrapp ou o (infeliz) atraso de 20 minutos do 120 Days.

Outro sinal dos tempos, independente de ser América do Norte ou Europa, techno ou rock, é que a sensação geral é de que o público não quer vivenciar horas da mesma coisa, do mesmo som similar. Reflexo da música cada vez mais misturada e freestyle de hoje. E o consumismo hedonista faz o Woodstock ser coisa de titios, claro. Se naquela época seios de fora e viagens de ácido eram marcos revolucionários, hoje uma reunião com jovens num gramado, com música e talvez drogas, é questão de férias, cartão de crédito e uma poupança organizada. Uma não-romântica constatação, mas tranqüila e revolucionária sim quando se analisa pelo lado da acessibilidade da coisa: devemos louvar esses tempos de Internet.

PREDILETOS DA CASA
Quem foram os mais legais, os no-shows pessoais de artistas que não vimos e aqueles que nos tomaram 20 preciosos minutos para firula ou má apresentação. Bem, ao menos as tendas serviam como sombra. Convidamos Thiago Ney, repórter da Ilustrada (Folha de S. Paulo) para opinar também, ele que foi parceiro de shows, limonadas e cervejas!

GAÍA
TOP 5
Santogold
Portishead
Gogol Bordello
Justice
Chromeo

PERDI :(
Dan le Sac vs Scroobius Pip
Roger Waters
Calvin Harris
Dan Deacon
M.I.A.

PERDA DE TEMPO
Dimitri from Paris
Fatboy Slim
Goldfrapp
MGMT
Bonde do Rolê

BOAS SURPRESAS
Gogol Bordello
Portishead
Black Kids
I'm from Barcelona
Sons and Daughters

VI POUCO E GOSTEI
Mark Ronson
The National
Love and Rockets
Sia
Diplo
JADE
TOP 5
Justice
Portishead
Kraftwerk
Chromeo
Spank Rock (só DJs)

PERDI :(
M.I.A.
Uffie & DJ Mehdi
Modeselektor
The Breeders
Yelle

PERDA DE TEMPO
Goldfrapp
SebastiAn
Bonde do Rolê
Man Man
Pendulum

BOAS SURPRESAS
Calvin Harris
Perry Farrell
Fatboy Slim
VHS or Beta
Love and Rockets

VI POUCO E GOSTEI
120 Days
Hot Chip
Aphex Twin
Dan Deacon
Sia
THIAGO NEY
TOP 5
Portishead
Justice
MGMT
Black Kids
Santogold

PERDI :(
Pendulum
Midnight juggernauts
I'm from barcelona
Kate Nash
Cool Kids

PERDA DE TEMPO
Sons and Daughters
Roger Waters
Man Man
Gogol Bordello


BOAS SURPRESAS
Les Savy Fav
Calvin Harris
The Verve



VI POUCO E GOSTEI
Jens Lekman
Sharon Jones
Kraftwerk
The National
Les Savy Fav




Tragédia anunciada?
Um parágrafo triste em toda a história Coachella: Benjamin Nicholas Muller, 21 anos, foi encontrado desacordado segunda-feira de manhã numa área perto do local do festival. Após o resgate, Ben, como era conhecido, acabou morrendo num hospital por volta das 11h da manhã. O jovem estava acampado no festival, era assíduo do evento e conhecido no fórum online do Coachella. Pelos comentários bem diretos, Ben era famoso por estar sempre "munido" com boas drogas, entre elas heroína e os fortes anestésicos Vicodin e Oxycontin, baseados em morfina. Pessoas relatam que ele sempre tinha algo "em cima", um rapaz chegou a comentar que, antes do set de Fatboy Slim, Ben estava fora de si e já perguntava se "está tudo certo com você para o Fatboy?". Até a namorada dele apareceu comentando (de maneira mórbida e conformada) como foi acordar e esbarrar com ele desacordado.

A morte de Ben soa como tragédia anunciada num festival que, sob calor de 40ºC e baixíssima umidade, é um celeiro de qualquer tipo de drogas baratas (ecstasy e ácido não passam dos US$ 15 dólares), incluindo as legalizadas, num país famoso por suas farmácias abastadas e povo hipocondríaco. R.I.P., Ben.

FOTOS!
Uma dupla de repórteres sem fotógrafos com um photo pass na mão e duas máquinas "caseiras" foi nossa estrutura para o Coacha 2008. Apesar da aparelhagem não muito boa, conseguimos captar bem todo o clima do festival e dos shows, além de outros cliques mais engraçados e curiosos, que exibimos agora numa galeira extra com fatos, fotos e personagens do Coachella 2008, enjoy!

Coachella extra!!
Aqui, um ligeiro retrato do nosso dia-a-dia: gente estranha vestindo pochete com sunga, gente bonita de wayfarer colorido, artistas despojados no trato com o público, a imprensa dando duro, a burocracia pré-Cerveja de um festival americano e as sensações catárticas de alguns shows, como o inesquecível live do Justice.

Coachella - Dia 01 (Sex, 25/abr)
No primeiro dia do festival, registramos o impacto inicial do gigante Empire Polo Field e shows como Jens Lekman, Midnight Juggernauts, Goldfrapp, Aphex Twin, Architecture in Helsink, Cut Copy, Santogold, Dan Deacon e Fatboy Slim.

Coachella - Dia 02 (Sáb, 26/abr)
Já acostumado com o tempo e a leve rotina, o sábado teve os inesquecíveis showzaços do palco principal: Kraftwerk, Portishead e Prince (fora a boa surpresa VHS or Beta, devidamente documentada). Nas tendas, Hot Chip, MGMT, Man Man, 120 Days, Calvin Harris, Erol Alkan, Kavinski e a turma brazuca do Bonde do Rolê.

Coachella - Dia 03 (Dom, 27/abr)
Acordar para o último dia de festival já dá uma certa nostalgia antecipada. Mas do camping ouvimos o soundcheck do Roger Waters, show que a noite vimos só o comecinho, já que havia o combo Simian+Chromeo+Justice a se viver. E valeu a pena a troca. De dia bons lives ainda de Deadmau5, Booka Shade, além de bons sets de A-Trak & Kid Sister, Dimitri from Paris.


VÍDEOS!

Justice - Genesis


Justice - Dance


Simian Mobile Disco


Cut/Copy


Dan Deacon


Kraftwerk - Robots

Portishead - Roads


The National

Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
Ilegal, imoral e engorda
Gaía Passarelli
Gaía Passarelli
comentários
10 comentários
Aline
Aline(09.05.08)
0AprovadoQueima
tô aqui na correria e não li tudo pra poder comentar melhor! mas aquela toalha branca ali na fotinho de vcs é minha hahaha o que eu posso falar por enquanto é sobre a estrutura e organização do evento que é realmente impressionante. não sei vcs, mas eu não peguei fila pra comer nem pra ir ao banheiro (que tinha sempre papel!), andei de pés descalços e eles chegaram na barraca intactos (sem cortes de garrafas de vidros jogadas no chão), entre outros momentos sem stress. é triste saber que o brasil não verá algo parecido tão cedo. ai ai que saudade me deu. ano que vem pretendo ir de novo!
Heat
Heat(08.05.08)
0AprovadoQueima
Legal! Gostei da corbetura também, espero algo parecido no Global Gathering Festival (UK)!

www.globalgathering.co.uk/lineup
Cacá Di Guglielmo
1AprovadoQueima
muito boa a cobertura....da vontade de estar la com vcs......=)
Mazita
Mazita(07.05.08)
1AprovadoQueima
a cobertura ficou incrível! parabéns pelos textos e fotos. deve ter sido divertido hein?
Gaía Passarelli
acho que o problema por aqui é simples: a marca viabilizadora precisa aparecer mais do que o que realmente atrai as pessoas para o evento, que é sempre a música e a experiência coletiva. quando nossos festivais perderem essa cara de evento "de firma", aí vamos poder começar a bater de frente com oq acontece no resto do globo. pq essa canastrice chamada "evento proprietário" só acontece por essas bandas, parece.