Responsável pelos beats da dupla de electro-rock She Wants Revenge, músico falou ao rraurl.com antes de show no Brasil.

Na generosa safra do electro-rock, corações cavernosos espumaram com o surgimento da dupla Adam "12" Bravin (foto) e Justin Warfield, os californianos do She Wants Revenge, uma catacumba de referências dos anos 80 - Depeche, Joy Division, Duran² -, com a batida mais generosa do electrocla$h e do rock dançante atual. Surgiram com estrondo, "Tear You Apart" foi hit máximo das pistas com seu blend de Dave Gahan, Peter Hook e morceguismo Marilyn Manson.
Por sua aura indie, a comparação com o indie ensabonetado do Interpol, lá da costa leste, foi inevitável e virou uma infame concepção para definir a banda, quase um cartão de visita não-autorizado. O fato é que esse quadro é mais complexo. Adam e Justin vieram do hip hop. Justin Warfield aliás teve uma proeminente carreira de MC no começo dos anos 90, produzido pelo filho de Quincy Jones, veja só.
E Adam, que falou ao
rraurl.com por telefone enquanto passeava num parque, foi DJ e produtor por anos mas hoje em dia não economiza
sucks para falar do hip hop. Amigos, formaram o She Wants Revenge após um churrasco (!) em tempos que anos 80 já era um revival clichê, mas que graças a Deus se manteve e ainda existe por causa de bandas novas. (Vamos combinar que as tentativas de Duran Duran e Depeche Mode sobreviver são quase tristes de tão insignificantes).
Comparações à parte, o She Wants Revenge faz o electro-rock mais pop no sentido americano de cafonice digerível, pegajoso, dançante e quase emo, de tanto que fala de amor. Eles tocam sábado no Nokia Trends 2007, em São Paulo.
Então vocês estão vindo ao Brasil, terreno fértil para bandas de alma gótica oitentistas. Ansiosos?Sim, sempre quisemos e agora apareceu essa chance. Sempre recebemos mensagens das pessoas dizendo "venham, venham, por favor...", e não íamos desperdiçar a chance. Há pouco tempo terminamos uma tour de dois meses pelos EUA com algumas datas no Canadá, e depois desse show em São Paulo e de outro em Seattle vamos tirar uns meses de descanso, o Justin acabou de se tornar pai.
Como é o She Wants Revenge no palco? Mais roqueiro?São quatro pessoas tocando ao vivo. Bem, nós soamos igual ao disco, não é mais roqueiro de maneira alguma, nós basicamente entregamos ao público as músicas do álbum e somamos a isso a energia que nasce entre a gente e as pessoas.
É justamente do rock que vêm todas as comparações que vocês devem estar cansados de ouvir (Interpol, Joy Division e afins). É possível para uma banda tocar rock dançante, obscuro, sem ser jogado aos eternos anos 80?Obrigado por não perguntar o que a gente acha das comparações, realmente já cansamos disso (risos). Bem, nós aceitamos quem somos e as bandas que nos influenciaram. Sabemos a imagem que passamos, que artistas nós viramos e nossa repercussão. Realmente não ligamos para esse blábláblá, mas só se fizerem as comparações certas. (
N. do A.: perguntando sobre quais seriam as comparações certas, ele desconversou).
Claro que os anos 80 nos influenciaram, mas a maioria dos jornalistas sempre erram, inclusive com as bandas de hoje em dia. Não nos importamos em "estar" nos anos 80, mas não somos uma simples versão daquela época, nosso som é perfeitamente compatível com os dias de hoje.
Conte um pouco como foi o começo, como você e o Justin decidiram criar o SWR.A gente se conhece desde criança, desde os 14 anos porque crescemos na mesma região. Sempre tivemos amigos em comuns e sempre estivemos ligados a turntables e
drum machines. Eu fui um grande DJ em LA por anos, produzi artistas do que na época se chamou muito de trip hop.
Disco de Justin Warfield de 1993

Justin sempre esteve envolvido no hip hop e queria o tempo todo compor comigo, mas cada um estava sempre ocupado com seus projetos. Até que quatro anos atrás nós dois nos encontramos num churrasco de amigos, e ninguém estava ocupado com trabalhos ou bandas, etc. Depois da festa fomos para o estúdio na casa de Justin e criamos muito hip hop, que era um vocabulário conhecido para a gente. Mas sabíamos que o hip hop havia mudado muito, ficado chato, e que não seria dessa maneira que a gente ia se expressar.
Até que um dia um amigo músico encomendou a mim umas batidas e eu criei uns sons de uma maneira que nunca tinha feito: dark, pesado, diferente de tudo mesmo. Aí eu mostrei para o Justin e ele disse "não dê isso para ninguém, dá aqui para mim". Ele colocou umas guitarras, vocais e criamos nossa primeira música: "Black Liner Run" (
bonus track da versão britânica do primeiro álbum da dupla).
Continuamos tocando e criando dessa maneira até perceber que tínhamos realizado algo novo. Conseguimos descobrir por essa maneira diferente, a cara de tudo que ouvimos quando jovens, a melhor forma de nos expressarmos musicalmente, Justin e eu.
Então o hip hop já era, sem culpa?Ah, sem dúvida. Nessa época que eu comecei o SWR eu estava inspirado por aquele tipo de composição de artistas eletrônicos como a Björk: cordas, arranjos misturados com batidas, eu estava apreciando muito esse estilo.
Por causa das comparações que fazem da nossa banda muita gente acha que existe um grande produtor, um selo por trás que chega para gente com um CD do Duran Duran e diz "ouçam isso e tentem fazer algo igual". Isso realmente existe por aí, mas não é o nosso caso de maneira alguma! Nós sempre criamos nossa própria música - temos as influências, claro -, mas é nossa música e não temos problemas dela soar como soa.
Você é o responsável por criar as batidas do She Wants. Como você as constrói? Elas vêm primeiro, antes dos riffs por exemplo, ou são inseridos depois que as melodias e as letras são criadas?Bem, o beat. Eu que os crio e ele vem primeiro, orientando a maioria das músicas. Eu sento sozinho e programo a
drum machine, depois o baixo, o piano e Justin aparece depois com a guitarra. As letras ele cria sozinho e as melodias às vezes nós soltamos juntos.
Muitas das músicas também são baseadas nos teclados e nos sintetizadores, colocamos as letras em cima e fazemos algo curioso, bem experimental. Sempre foi assim, mas esse último álbum nós trabalhamos de uma maneira mais tradicional, quase como banda de rock.
A coisa ficou preta em 2007

Era o que eu ia perguntar, sobre como This is Forever é mais roqueiro do que um álbum para as pistas.Eu acho que é dançante sim. A nossa decisão de fazer um álbum mais obscuro, negro se deu na progressão dos acordes, mais marcantes e que escondem um pouco o beat. Mas ainda acho que é extremamente dançante, você vai ver no palco.
As histórias de amor do SWR são todos fatos vividos por vocês?Eu não posso falar pelo Justin, que compõe as letras, mas acho que nossas músicas refletem um tipo de cara que senta para pensar em suas relações, coloca um disco do Bauhaus, toma um café e escreve sobre seus sentimentos. E no geral, independente de quem são os envolvidos nas histórias, é sempre um homem que escreve para uma mulher, e isso é algo universal.
As pessoas sempre vão associar nossa personalidade às histórias que cantamos, claro que muito do que vivemos influencia, mas falamos do amor em geral.
No MySpace de vocês é fácil de ver a quantidade de fãs mulheres, no show deve ser a mesma situação, não?Talvez. 60% do nosso público devem ser mulheres, e elas sempre ficam na primeira fila! Mas há muitos homens, principalmente caras de nossa idade que cresceram ouvindo as mesmas coisas que a gente - Smiths, Depeche Mode, Prince. Não importa como nossas músicas são interpretadas, alguém sempre vai se conectar de alguma maneira, tanto mulheres como homens, mesmo que seja apenas pelo nosso som.
Deve ser o caso de muita gente por aqui no Brasil, já que nem todo mundo fala e entende inglês perfeitamente.Absolutamente. Eu não canto, meu trabalho na banda é pensar no beat, é dessa maneira que eu expresso o que sinto, minhas emoções inclusive.
Fui DJ muito tempo, tenho a habilidade de sentir o que o público precisa numa festa. Isso vale na hora de tocar teclados, baixo, qualquer outra percussão que eu toque. Num país de língua estrangeira eu tenho que ter esse
feeling ainda mais forte porque minha importância aumenta.
Fale um pouco de sua carreira como DJ. O She Wants Revenge ainda é mais ligado ao cenário rock. Vocês não pensam em fazer remixes, DJ sets, algo como o Hot Chip faz, por exemplo?DJ Adam 12, em 2005

Eu tocava o tempo todo, cinco dias por semana, era e ainda é parte do que sou. Eu amo o fato de estar numa banda e também ser DJ, eu ainda toco em muitas festas e fico feliz por ser um músico completo dessa maneira e também por ter a liberdade de tocar o que quiser. Aqui nos Estados Unidos muita gente sempre espera que o DJ toque hip hop a noite toda - isso é um saco, ainda mais porque 99% do hip hop de hoje em dia é um lixo.
Eu sempre editei os outros, remixei a Beyoncé e me orgulho disso (versão para "Crazy In Love", assinada como Adam 12 remix), e com certeza o SWR fará remixes no futuro. Mas não temos tempo, ser banda consome toda nossa energia. Ah, já remixamos o Placebo uma vez.
Que técnica você usa para tocar hoje em dia?Gosto do vinil desde sempre, mas tenho usado muito o Serato porque facilita muito para tocar diferentes tipos de música.
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
O
rraurl.com pediu então um rápido chart de cinco faixas, que em dois minutos listou algumas músicas que ele tocou numa festa de ricaços em Los Angeles. Ouça as escolhas de Adam em stream.
Amoooooo
"i wanna fucking tear you apart"