Noite de Camboriú se prepara para mudanças
Clubes fechando, outros abrindo, leis regulando a noite: o que pode acontecer?
16.10.07 15:25
Praias paradisíacas e outras nem um pouco, paredões de prédios kitsch e congestionamentos quase ao lado de pacatas vilas de pescadores, e multidões com distintos sotaques e procedências por todos os cantos. Em linhas gerais assim é a região de Balneário Camboriú (não confundir com a vizinha Camboriú, que nem praia tem), cidade catarinense que juntamente com Itajaí ao norte e Itapema e Porto Belo ao sul, compõem o principal circuito de clubes e festas eletrônicas no sul do Brasil.
Balneário Camboriú já recebe, sozinha, mais turistas por ano que a hypada capital catarinense, Florianópolis, e grande parte desta babel de turistas que vem de toda parte do Brasil e do Mercosul não se aglomera na região em busca de sossego, mas sim de alguma coisa para se fazer durante a noite. Com forte vocação para vida noturna há quase trinta anos, na última década a região experimentou uma invasão de clubes e festas, com uma reação das mais inesperadas das autoridades locais. Proibições para realização de festas e dificuldades na concessão de alvarás para clubes somadas à confusões com as autoridades policiais locais e trocas de acusações logo se tornaram marca registrada na cena noturna catarinense.
O público, alheio à turbulência dos bastidores, aumenta a cada ano e fez a região dona de uma das melhores pistas do mundo, a ponto de muitos managers de top DJs por aí solicitarem datas para tocar nos clubes locais. O inevitável apelido de "Ibiza brasileira" já virou lugar comum até em revistas e guias de viagens, mas a verdade é que se estabeleceu uma lógica conveniente ao mercado global da música eletrônica. De dezembro a fevereiro, músicos e clubes europeus fogem da pasmaceira do inverno local em turnês pelo verão brasileiro, com a região de Balneário Camboriú como destino principal. A partir de novembro figuras como Carl Cox, Paul Van Dyk, Deep Dish, Sasha e John Digweed já confirmaram passagem pelo litoral catarinense, além de uma infinidade de outros DJs, brasileiros ou não, que disputam datas em clubes e festas no sul.
POLITICS OF DANCING
Com todo este crescimento e visibilidade, não era difícil às autoridades locais constatar que a movimentação do público noturno da região pode render dividendos que compensem em muito o incômodo que o som alto ou o lixo deixado para trás depois de uma festa possam causar.
E o que pode ser o primeiro sinal de "boa vontade" política está prestes a se concretizar: a iniciativa da Prefeitura de Balneário Camboriú de criar uma área exclusiva dentro do município destinada somente à diversão noturna. Situada à margem do Rio Camboriú e com acesso pela Barra Sul, o complexo, chamado "Projeto Vida Noturna", prevê a construção de cerca de quatro grandes clubes (com área de cerca de 4.000m), além de bares, quiosques e lojas, tudo ao redor de uma grande praça central destinada a grandes eventos, com capacidade para abrigar até 15 mil pessoas.
O projeto será incluído na lei municipal de zoneamento a ser votada até o fim do ano, e tem previsão de implantação durante 2008. A idéia é muito atraente por livrar a noite da região de dois grandes problemas recentes: a agressiva especulação que inflaciona a níveis astronômicos o mercado imobiliário local e as restrições ambientais cada vez mais severas.
Juntos, estes fatores obrigam os donos de clubes a procurar alternativas com urgência. Ao mesmo tempo em que há uma pressão grande para que os espaços atualmente ocupados pelos clubes, a maioria deles na Barra Sul, cedam espaço a empreendimentos imobiliários, a maior parte das poucas áreas ainda não ocupadas do município se encontram protegidas por leis ambientais rigorosas.
Beno Costa, responsável pelo clube Deseo, situado na Barra Sul do balneário, não vê muitas alternativas senão apoiar o projeto: "Não há muitas opções para a atividade noturna em Balneário Camboriú, então a solução natural é buscar outras áreas. Mas não vai ser fácil operacionalizar o projeto proposto pela Prefeitura; são muitas mudanças e muitos interesses em questão".
Para Herlon Hamm, um dos mais antigos produtores de eventos da região e proprietário do clube Case e do lounge Djunn, o projeto "só será viável se houver a construção de uma ponte no final da via gastronômica, ligando Balneário Camboriú ao outro lado do rio. Tem que ser um projeto com toda infra-estrutura montada, algo nos moldes do que foi feito em Puerto Madero (região revitalizada de Buenos Aires cheia de bares e restaurantes). A prefeitura tem que dar condições para as casas noturnas irem para lá, alguma espécie de atrativo pelo menos a algumas casas ‘âncoras', para que outras possam ir para lá também. Caso contrário, vai virar mais um ‘elefante branco' a exemplo do que é o morro do Cristo Luz".
Já Tony Milano, que trabalhou durante anos no Ibiza e hoje é um dos responsáveis pelo clube Cult, se mostra mais otimista com relação ao projeto: "Balneário Camboriú hoje depende de uma boa vida noturna, afinal ela é uma das principais atrações da cidade. Esta iniciativa, se bem conduzida, pode ser decisiva para o futuro dos clubes locais".
O Secretário de Planejamento Urbano do município, Auri Pavoni, argumenta que o objetivo é realizar reuniões e audiências públicas com a população e os donos de clubes para se chegar a um consenso. "Estamos em busca de qualidade na vida noturna da cidade. Hoje a noite é uma atividade importante para a economia local, já que atrai muitos turistas e gera empregos. A idéia é fazer uma parceria entre a prefeitura e a iniciativa privada para que se tenha uma área exclusiva para os clubes, e estamos dispostos a negociar para que o projeto se concretize".
HIATO NO VERÃO?
Até que o novo projeto saia do papel, isso se ele realmente sair, grandes pontos de interrogação cercam a vida noturna local. A previsão é de que dentro de poucos anos os clubes não possam mais obter alvarás para funcionamento na Barra Sul, o que impõe mudanças no cenário noturno local. Quem esteve na região no verão passado e retornar menos de um ano depois poderá se surpreender.
Um dos clubes mais tradicionais de Balneário Camboriú, o Ibiza, não só fechou as portas como já foi totalmente destruído, cedendo espaço a guindastes e operários trabalhando no imenso terreno. Mesmo destino teve o vizinho Aiya-Napa.
O Warung, situado na Praia Brava de Itajaí, reabriu no feriado de 12 de outubro após ficar quase cinco meses de portas fechadas em virtude de uma limitação judicial à sua capacidade. O clube já anunciou atrações para o mês de novembro, mas ainda não confirmou a programação da temporada, já que segundo determinação judicial só pode realizar dois eventos por mês.
Já o Pacha, que há mais de um ano sonda a região acenando com a possibilidade de abertura de mais uma unidade brasileira, segue fazendo mistério e guarda a sete chaves as informações sobre a nova casa, que só deve abrir as portas definitivamente em 2008.
A conta, então, é simples: se Warung e Ibiza podiam receber, juntos, cerca de 5 mil pessoas em um único final de semana, com o fechamento deste e a instabilidade daquele, é provável que falte lugar pra tanta gente na próxima temporada. Logo, incrementar as opções em clubes menores parece a saída mais lógica para absorver o cada vez mais numeroso e diversificado público.
Assim, ao que tudo indica na próxima temporada a movimentação deve se concentrar nos clubes menores. Além do clube Cult, recentemente aberto, está prevista a inauguração de uma filial da Vibe, de Curitiba, ainda em 2007 e também na Barra Sul. Deseo e Kiwi, casas do mesmo porte, também esperam suprir a lacuna deixada pelos clubes grandes, e garantem que irão investir alto em atrações para o verão. Todos estes locais possuem capacidades pequenas, não comportando mais do que 400 pessoas.
Em meio a tantas incertezas e indecisões, o aspecto positivo é que finalmente um dos principais pólos da eletrônica nacional começa a encontrar, aos poucos, seu devido espaço na pauta oficial do Estado. Isto pode ser ótimo por legitimar o segmento enquanto merecedor de atenção política que lhe é merecidamente devida, eliminando de vez ameaças retrógradas ao funcionamento das casas noturnas e consolidando a região como um possível pólo mundial de entretenimento. Ponto para clubes, DJs e público.
Por outro lado, não se pode deixar de imaginar que, em se tratando de um ambiente que envolve tantos interesses, a interferência política pode simplesmente se converter em mais um combustível para aumentar ainda mais a temperatura nos já efervescentes bastidores da noite local.
João Anzolinmusic expresses that which cannot be put into words and that which cannot remain silent
Abraços.
Expressou tudo o que estamos passando por aqui, é triste mesmo ver uma das maiores cenas do país, se não a maior indo por esse lado. Mas parece que com o "clubinho" (Warung) de volta, já nos trás mais alegrias, só falta eles maneirarem no sal dos ingressos. Hehe.