JAMES BROWN 1933-2006
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JAMES BROWN 1933-2006
Suspeita é de pneumonia; a música tem uma dívida enorme com ele
25.12.06 21:00
James Brown morreu hoje (25/12), aos 73 anos. Ele estava internado desde o dia anterior por pneumonia. Segundo o UOL, o agente dele, Frank Copsidas disse que Brown não estava na UTI e que não se sabe a causa exata de sua morte. Segundo disse o Reverendo Jesse Jackson, "ele foi dramático até o fim - morrendo no dia de Natal. Ele estará nas notícias do mundo inteiro hoje. Do jeito que ele gostaria que fosse."

O status de James Brown como super-homem do show business tem poucos paralelos. Sem dúvida, é o artista negro mais influente dos últimos 50 anos E um dos artistas mais fundamentais da música do século passado como um todo. Sua carreira é feita de superlativos e feitos impressionantes, seja artística, comercial ou, ainda, politicamente falando.

UM NOVO TIPO DE GROOVE
Para a música de groove, de pista, eletrônica, James Brown é o criador primeiro. Podemos dividir a música entre antes de James Brown e depois de James Brown pelo seguinte motivo: ao inventar o funk nos anos 60, ele lançou um tipo de composição para pista de dança, onde o enfoque era no ritmo e não na melodia ou na mudança de acordes. O baixo e a bateria ficavam bem em evidência, com guitarras, metais, vozes, todos complementando o motor do ritmo. Tudo que veio depois, disco, jazz-funk, electro, hip hop, house, tecno, drum'n'bass, R&B moderno, dancehall, funk carioca etc. segue esse modelo de composição.

Sua maneira de se auto-promover e de controlar pessoalmente sua carreira e negócios (era seu próprio empresário desde os anos 60) provou ser um bom exemplo para jovens negros, incluindo artistas como Prince e Michael Jackson. Com o advento do sampler, suas batidas, gritos e grooves foram de longe os mais apropriados pelas novas gerações. Na virada dos anos 80 para os 90, por exemplo, havia uma febre de discos para pista de dança usando um loop de dois compassos de "Funky Drummer", incluindo faixas de Public Enemy, George Michael e Sinead O'Connor (o site Sample Spotters cita mais algumas dezenas de usos, ver link abaixo).

CRIADO NA POBREZA
Vindo do paupérrimo sul rural americano, Brown foi criado na pobreza por sua tia Honey, "madam" de um bordel na Carolina do Sul.
Passando a adolescência nas ruas de Augusta, Geórgia, aos 16 anos foi preso por roubo, ficando quatro anos no xadrez. Lá conheceu Bobby Byrd, que seria seu parceiro musical mais fiel nas décadas seguintes. Quando saiu e teve que optar entre esporte (já que jogava beisebol muito bem) ou música ficou com a segunda opção, já que "cantar e diversão faziam as mulheres gritar e eu esqueci todas as outras coisas. Eu sabia com o que queria me envolver."

Depois de passar por pequenos grupos, Brown se juntou aos Famous Flames. Com eles tirou a sorte grande em 1956 com a balada "Please Please Please", que vendeu um milhão de cópias nos EUA e o revelou. Sua visão particular de fazer música se mostrava certeira, mas ele teve que provar isso: o dono de sua gravadora de então tinha odiado a gravação porque achou a letra pobre e o arranjo repetitivo. Só lançou a faixa muito a contra-gosto.

A ORIGEM DO FUNK
Daí em diante, Brown não parou mais: os hits vieram um atrás do outro e seu som, a partir de meados dos anos 60, se consolidou, dando origem ao funk: ritmo forte, arranjos esparsos, ataques curtos de metais, energia e atitude que o mundo aprendeu a amar através de clássicos como "Papa's Got A Brand New Bag", "Give It Up or Turnit a Loose", "Funky Drummer", "Cold Sweat", "It's A Man's Man's World", "Sex Machine" e "The Payback". Foram discos que revolucionaram a estrutura da canção pop. Era o funk, um rhythm'n'blues sem frescura, de influências latinas e jazzísticas.

Seu show era um espetáculo sem paralelo, ensaiado à perfeição, com músicos tecnicamente exatos e a personalidade gigantesca de Brown hipnotizando a platéia com chamadas, dança e movimentos que viraram lenda. Um clássico era a deslizada de joelhos pelo palco até "desmoronar" na outra ponta, reaparecendo logo depois envolto numa capa real. Segundo consta, perdia até 3 quilos por apresentação. Foi aí que ganhou seus famosos títulos como "Mr. Dynamite", "Homem que trabalha mais duro no show business" e "Soul Brother Number One".

Seus músicos incluiram nomes como Fred Wesley, Maceo Parker, Clyde Stubblefield, Bernard Purdie, Jimmy Nolen, John 'Jabo' Starks, Pee Wee Ellis e Bootsy Collins (este último depois se juntaria a trupe de George Clinton, nas bandas Parliament e Funkadelic), além de "funky divas" como Lyn Collins e Marva Whitney. A partir de 1970, sua banda de apoio passou a se chamar JBs. Tanto a banda, como alguns de suas músicos e as divas tem uma extensa discografia paralela, contendo por exemplo a hiper-sampleada "Think (About It)" (Lyn Collins, com o famoso "Uh! Yeah!"), "Cross the Tracks" (Maceo & The Macks) e "Pass the Peas" (JBs).

"NEGRO E COM ORGULHO"
Brown assumiu com grandeza seu papel de ícone dos negros americanos, simbolizando a vitória da garra e auto-determinação em face do racismo. Apoiou ativamente os movimentos pela igualdade dos direitos civis e, logo após o assassinato de Martin Luther King, falou em cadeia nacional de rádio pedindo calma à população negra revoltada. Fora isso, patrocinou programas para jovens do gueto, deu palestras em faculdades, investiu em negócios negros e se apresentou para tropas no Vietnã. Na música, lançou singles engajados como "Say It Loud I'm Black and I'm Proud" ("fale alto, sou negro e com orgulho") e "King Heroin" (sobre o flagelo da heroína).

A máquina musical de James Brown adentrou os anos 70 a todo vapor, só perdendo gás com o crescimento da disco, que acabou deixando ultrapassados ou diluindo centenas de artistas do funk. Ele bem que tentou se manter em destaque se proclamando o "original disco man" mas não vingou. Com o advento do hip hop, Brown cutucou a nova onda com a faixa "Rapp Payback". O movimento contrário foi desproporcional: com a introdução do sampler na produção de discos de hip hop, gritos, batidas, guitarras e metais de James Brown passaram a ser opção preferida na hora de emprestar do passado. Até hoje ele segue como o artista mais sampleado de todos os tempos: de Deee-Lite a Stanny Franssen, de DJ Rush a Madonna, todo mundo já emprestou um pouquinho de James Brown.

Faz sentido já que os breakbeats de James Brown sempre estiveram entre os mais populares entre os b-boys desde antes de qualquer gravação. Brown nunca se opôs à reciclagem, desde que lhe pagassem, claro. E de modo correto. "Tentaram dividir James Brown de muitas maneiras diferentes. Mas eu não me importo contanto que me usem de maneira positiva," disse uma vez.

MAUS BOCADOS
Depois desse ressurgimento no papel de artista do momento (seus hits tinham secado no fim dos anos 70, a solitária exceção sendo "Living In America", para a trilha de Rocky 3, um rompante patriota, gravado a pedido do próprio Sylvester Stallone e que levou um Grammy em 1986), Brown enfrentou um período de maus bocados.

Em 1988, pegou três anos de cadeia depois de ameaçar com uma arma trabalhadores de um escritório perto do seu. O motivo? Teriam supostamente usado seu banheiro sem permissão. Quando a polícia chegou, fugiu numa caminhonete até ser alcançado e detido. Brown teve ainda outros problemas com a lei, incluindo condenações por uso de PCP e acusações de uma ex-mulher por violência (foi absolvido) e uma ex-funcionária por tentativa de estupro (absolvido também).

Esse homem parecia que não ia parar nunca "Se aposentar pra que?", ele respondeu perguntando numa entrevista de março de 2005. "O que eu iria fazer? Fiz meu nome como uma pessoa que ajuda. Sou como Moisés no meio musical." E arrematou sabiamente: "Toda música tocando na última parte do século 20 era tudo James Brown. O século 21 é James Brown e ponto final."

E ele deve estar agora lá em cima cantando "I Feel GOD!"

Veja abaixo um vídeo de "I Got You (I Feel Good)", de meados dos anos 60.



Camilo Rocha
Camilo Rocha (camilo @ rraurl.com)
Putz! Putz!
comentários
Cury
Cury (03.01.07)
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quem viu ele no velódromo da usp nao esquece ...
bom descanso!
DJ Acácio Moura
DJ Acácio Moura (29.12.06)
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Caracas eu até chorei qdo vi na net segunda umas 18h. Acho dificil aparecer alguem como ele na música, vamos torcer para aparecer neh.

mas não esquenta não, pq la em cima a festa vai ser de arrasar!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Samir Oliveira
Samir Oliveira (28.12.06)
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Eu era pequeno e escutei o som que me fez ver o mundo e ouvir a musica de uma outra forma, so sabia que o nome era James por causa das capas dos discos do meu pai. Queria que meu pai falasse mais coisas sobre Brown pra mim, como Brown falava pra mim coisas que eu gostava mas na verdade eu gostaria que meu pai falasse. Esperava encontrar ele um dia e dizer "vc me fez bem, sabia?" Encontrar quem? meu pai!, James Brown era o nome dele.
:p
Bené
Bené (27.12.06)
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Vai se o mito, ficam as faixas que sao classicos eternos.
Eh receber a noticia da morte do James Brown no natal nao foi nada facil.
E sobre o texto do Camilo, li várias matérias em jornais e na net, mas cara o seu foi o melhor que li ateh agora. Parabens!
Jade
Jade (27.12.06)
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passado..
segunda morte qdo eu to viajando.
em Julho foi o Bussunda, agora James Brown..

deixa eu atualizar meu "celebrity death pool" do rotten.com
proximos