"Não acho que uma experiência alternativa e cultura psicodélica sejam viáveis com 10 mil pessoas disputando um chuveiro quente e verdadeiros hospitais de campanha atendendo os ´excessos´"
Consultor do rraurl.com para assuntos psicodélicos e afins, Bruno Camargo ganhou o cargo depois de enfrentar muita lama em raves por aí, seja como DJ Carbon23, freqüentador ou curioso. E não estamos falando de sujar as lindas botas que vemos nas festas de hoje, mas de carros alugados atolados até a janela durante dias em algum canto do sul da Ásia.
Soma-se ao conhecimento do rapaz um particular espírito crítico, característica que lhe deu distanciamento suficiente para escrever sobre o tema e suas variantes em diversos veículos. Um dos mais emblemáticos é o portal Chaishop, pioneiro na divulgação da cultura psy e que, ao se instalar em terras brasileiras, deu um saudável empurrão ao que ganhava contornos de uma cena específica.
Aqui Bruno fala um pouco das mudanças sofridas por essa mesma cena, e mostra o fio condutor da mudança do cardápio sonoro das raves de psy e as iniciativas que motivaram sua migração e de tantos outros DJs para a house music e vertentes.
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No começo, as raves eram uma mistura só. Depois, já segmentadas, cada estilo tomou seu caminho. Em que período a cultura de música eletrônica psicodélica viveu sua fase, vamos dizer, mais "pura"? Acho que foi em algum momento entre 1998 e 1999... Nessa época houve uma coisa interessante nos então restritos meios de informação a respeito de tudo isso que estava rolando. No Brasil, eram praticamente dois veículos: o próprio rraurl.com, ainda iniciando, e a lista de discussão br-raves, onde o rraurl.com teve um primeiro embrião ou pelo menos assim me parecia na época. Ainda que não faça muita diferença quem começou primeiro ou uma coisa originou a outra, a questão é que no resto do mundo já começava a se criar uma estética própria do psytrance, ex-goa trance, e o pessoal que já estava criando as raves por aqui seguiu por outros caminhos, da house ou techno, e não aceitava e nem queria mais tratar desse gênero no seu espaço. Aí, foi criada pelo Rogério Martinelli uma lista de e-mails vinculada ao site alemão chaishop.com, chamada de "br-trance". Esse foi, acredito eu, o primeiro passo da organização do psytrance no Brasil em uma cena autônoma dentro de um sistema de informação globalizado assim como já rolava em outros estilos. Não sei se podemos dizer "mais pura", mas era uma época de muito conceito e uma vontade legítima de fazer algo rolar, bem típico de movimentos embrionários.
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Naquela época, o Chaishop já era um nome forte no cenário internacional, certo? E você foi um dos pioneiros na chegada do site ao Brasil, por assim dizer. Como esses dois pontos se interligam? Isso foi obra mesmo do Martinelli, eu ajudei depois. Com esse impulso de criar o espaço próprio do psytrance sem pensar direito onde tudo ia dar , ele participou do primeiro festival Solipse, na Hungria, e aproveitou pra conhecer o pessoal do Chaishop na Alemanha, e lançou a idéia. Nessa época, já acontecia há mais de 5-6 anos o Voov Experience e o Antaris Project, festivais enormes na Alemanha. No ano seguinte, em 2000, eu fui morar em Londres, e levei alguns flyers do Celebra Brasil, o primeiro festival de nível internacional feito no Brasil pelos caras do Etnica e da Daime Tribe, e o povo de lá pirou. Com exceção de quem tinha alguma ligação com os
sannyasis de Alto Paraíso (seguidores do guru Osho, que se organizam mundialmente em comunidades e trocam informações), Raja Ram e o povo da TIP Records, por exemplo, pouquíssima gente considerava que no Brasil havia uma cena psytrance rolando, com festas incríveis e abertura pra isso. É engraçado porque, nessa época em Londres, as festas psytrance eram colocadas em segundo plano, eram "pista 2" de festas de acid techno, salvo alguns núcleos que faziam festas em lugares maiores como o Thyssen Street ou o The Drome, mas eram poucas. E aí, quando eu falava de praias ou lugares paradisíacos onde se poderia colocar um sound system e mandar ver um fim de semana inteiro, ao estilo de Goa anos atrás, o pessoal se interessou muito. Foi quando passei a publicar artigos nas revistas Dream Creation, da Inglaterra, e Mushroom, na Alemanha, e era incrível porque eu sabia que estava falando coisas muito diferentes pra gente acostumada com isso. Durante anos recebi e-mails de pessoas de todo o mundo que liam os artigos e queriam vir ao Brasil, tocar ou curtir e aí o Chaishop Brasil começou a contribuir pra que isso rolasse. Mas nessa época, a Daime Tribe já trazia gringos amigos pra tocar, e uns núcleos foram investindo na história como a Psychogarden e o pessoal de Goiás. Meio que juntamos o esforço do pessoal que organizava festas com um canal de comunicação em nível global baseado na internet, o Chaishop, e a lista de e-mails ajudou a conectar o pessoal que estava fazendo as festas por aí. Pelo que me consta, foi a primeira vez que a cena psytrance saiu do boca-a-boca. Foi curioso porque o Chaishop era uma coisa meio careta no começo pra galera que realmente vivia um estilo de vida mais freak, que olhava a coisa com um pouco de preconceito (uma coisa "ah lá vão os nerds de computador"). Mas hoje é fato que foi uma iniciativa visionária dos caras, numa época em que não se sabia direito onde tudo isso ia parar.

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E o que rolava de música nessa época? O full on já tinha dado as caras? Olha, nessa época tinha uma coisa bacana no psytrance, musicalmente falando. Como todo mundo tinha saído do Goa trance, as regionalidades apareciam bastante nas produções. O Goa mesmo era bem pesado, mas depois acho que apareceram basicamente algumas "escolas" bem definidas. A inglesa tinha gente como Cosmosis, Shakta, Tristan, Dino Psaras, Jean Borelli (dinamarquês, mas morava no Reino Unido), Mark Allen e selos como Flying Rhino e Dragonfly, que faziam um som mais psicodélico e agressivo. O Flying Rhino, do James Monro e Gus Till, foi algo realmente revolucionário na época, com sons bem sinistros e pesados, eram muito diferenciados. Daí, tinham os alemães e escandinavos, com uma linha mais progressiva e técnica, gente tipo Haldolium, Klangstrahler Project, Atmos e selos como Free Form e Spiral Trax, e de um lado mais pesado, a Spirit Zone. Tem também o pessoal de Ibiza, que tinha nacionalidades diversas, gente como Growling Mad Scientists (o GMS), Deedrah, e a própria TIP do Raja Ram falo pessoal de Ibiza porque era muito característico o som que vinha de lá. Por fim, os Israelis, que foram os primeiros a colocar álbuns com o nome de "Israeli Trance": Infected Mushroom, Xerox e outros. A troca de informação e música era muito intensa, você recebia CDs promo do nada na sua caixa de correio, meio que herança da troca de DATs que rolava antes, mas acho que tinham essas tais "escolas" e o que se hoje fala que é "full on" saiu mesmo das duas últimas, Ibiza e Israel, sendo que o full on de Israel foi o que realmente caiu no gosto do pessoal. Depois as coisas foram se misturando, mas lá atrás era nítido quando um DJ tocava um "israeli" geralmente um som sempre muito melódico e até meio "pop".
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Pergunto do full on porque, aos meus olhos, me parece que foi quando o psytrance trouxe criatividade de dentro pra fora, se renovou, entende? Tô errado? Cara, eu discordo com relação à criatividade. Na minha opinião, o full on não promoveu o que a sonoridade do psytrance tinha de mais característico, que era a psicodelia, o som um pouco mais fluído, linear, com umas explosões e build-ups aqui e ali. Mas não se pode generalizar, tem full on bom e full on ruim, como tudo. Mas não acho que o sub-estilo tenha contribuído tanto assim. Eu acho que o full on fez mais pelo psy como divulgação e expansão do estilo do que como uma evolução musical. Música intensa e público intenso resulta em sucesso. Mas o que se tinha por "trance psicodélico" ficou um pouco comprometido, e junto disso toda uma cultura que vinha junto. Outro dia li um texto do Camilo em que ele menciona essa sede da garotada pela música mais intensa, bombada. Acho que o psytrance hoje atingiu na mosca esse nicho. Hoje uma típica rave de psytrance me lembra muito mais um show de heavy metal do que a coisa intimista, psicodélica e ritualística que se tinha antes. Sem romantismos ou nostalgia, e de forma alguma crítica ao que existe hoje, mas são experiências completamente distintas. Basta ver que agora é cada vez mais comum festas que começam de manhã, de dia, sendo que a virada da noite pro dia sempre foi um "fundamento" de uma festa psytrance, uma corruptela de rituais shivaístas hindus: enfrentar a noite e ter como presente o dia. O DJ Jorg Kessler, por exemplo, é um cara que sempre tocou pesadíssimo, rasgação, mas fazia uns sets de 12 horas com essa idéia ritualística na cabeça. Sem demagogias, claro. Festa de música nunca foi lugar sagrado ou religioso, longe disso. Mas tinha um conceito, entende?
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Entendo, claro. Certa vez você escreveu aqui no rraurl.com que "como tudo que é reproduzido, certa hora se perde o vínculo com aquilo que tornava o assunto especial". Qual o foi o ponto de virada na cultural psy? Olha, uma vez um pessoal organizou uma festa "secreta". Todo mundo se encontrou em um posto de gasolina às 11 da noite, uns 10 carros ganharam filipetas e meia noite saiu um comboio de uns cem carros seguindo uns aos outros. Quem não estava no posto na hora combinada, não saberia como chegar na festa. Chegaram todos juntos em um sítio super maneiro, rolou uma festa ótima, ninguém sabia direito quem ia tocar e isso nem importava. Uns festivais onde tudo se organizava meio sozinho, ninguém reclamava de banho frio ou de comer rango dos Hare Krishna durante 5 dias seguidos. Aí, quando se começa a tentar reproduzir isso em massa, o lado mais criativo e espontâneo se perde e aparece neguinho falando horrores que tomou banho frio no festival, que a namorada quebrou o salto na lama ou que o super DJ gringo na verdade era uma fraude, tocou bêbado e mal.... Mas isso vale pra qualquer coisa na vida, não escrevi aquilo pensando só em psytrance (risos).
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Eu sei, mas acho que cabe "mais ou menos" pro psy... (risos) A crítica é mais pra quem acha que pra tudo na vida existe uma fórmula e um rótulo. Infelizmente esse raciocínio cola na maioria das cabeças, é a praga do pop!
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Juntar "praga" e "pop" na mesma frase me obriga a lembrar do Humberto Gessinger e isso me assusta. Nem brinca! (risos). O lance é que tem tanta coisa boa para se explorar, e muita gente chega na história achando que então é normal que um cara fortão se pendure nas estruturas do palco, que é legal ficar falando que se usou drogas, coisas assim. O famoso "Frito Passa-Mal"...

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Enfim, eu sei que é foda, mas eu queria traçar uma linha dessa "despsicodelização" das raves de psy, se é que eu não tô falando merda. Não tá. É fato.
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Como aconteceu? O que eu acho é que o nicho que o psytrance atingiu hoje é o dos que há 10 ou 15 anos estariam ouvindo heavy metal em sua época mais popular, com concertos em estádios cheios. Eu vivi as duas cenas e posso falar com algum critério: o comportamento é muito semelhante, desde o fanatismo quase religioso até a sede pela virtuose. Se antigamente ficava um bando de garotada de braço cruzado olhando o guitarrista, se antes montavam bandas que duravam um mês, hoje tem muito disso com a garotada que pede autógrafo pra um DJ e monta "núcleos" de festa para poder tocar pros amigos. Nada contra, mas não muda muita coisa do que se fazia antes.
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Muito se fala do Tim Healey, mais precisamente do set do cara, no Solaris de 2005. Consta que ele passeou por breaks, rock, house e electro com BPM mais baixos... bingo! Electrohouse! Daí então, a coisa se alastrou por outras raves de psy. Primeira pergunta: essas misturas freqüentam essas festas há mais tempo, certo? Segunda: você mesmo investiu em coisas diferentes, né? Apanhou muito? Cara, o Tim Healey é um dos ícones da tal "escola inglesa" do psytrance. Mas ele soube se modernizar com maestria, ele tinha o Electric Tease, depois lançou como Quirk, entre outros, e sempre era uma coisa assim de cair o queixo, totalmente diferente e de ótima qualidade há um tempo ele vem lançando esses electrohouse/discopunk como Coburn. Quando tocou no Solaris, ele fez aquilo que muita gente estava esperando há tempos mas não sabia: tocar música diferente do que vinha rolando. Eu e mais outros DJs já vínhamos investindo nisso há anos. Fui muito criticado por tocar "house" em festas psicodélicas, uma coisa "traidor do movimento", sabe? (risos) O fato é que uma festa ao ar livre, num espaço bonito e cheio de gente, é um terreno excelente pra se tocar trance, house ou techno. A bobagem é tentar "fidelizar" a iniciativa, porque a música e a cultura que gira em torno, de qualquer estilo de forma geral, em si é mutante. Os estilos se segregam, depois se misturam, voltam a se segregar... E quem não acreditar nisso, corre o risco de se isolar à toa. Por volta de 2003, quando eu desisti de tocar psytrance e passei a colocar mais e mais elementos de house nos meus sets, eu tive esse estalo e não foi sozinho.
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Quem mais? Uns núcleos começaram a investir nisso, fazendo festas open air exclusivas de prog-psy, depois prog-house, e mais recentemente house e vertentes. Mas o fato de um DJ gringo, cheio de estilo e carisma, aparecer numa hora nobre de um festival de psytrance e tocar Blur, por exemplo, quebrou paradigmas de muita gente, mesmo que já tenham torcido o nariz pra novidade antes, mas brasileiro tem um pouco disso, né? "Se é gringo, então vale" sem desmerecer o Healey, que é um produtor pra quem eu tiro o chapéu. Eu comemorei muito, achei que foi um tiro certeiro do pessoal da Solaris/Tribe em investir no nome dele que, aliás, deve ter sido recomendado por 10 entre 10 artistas de psy presentes no evento. Respect, né? Mas olha, o Tobias Bayer (do selo Plastik Park) já havia tocado no Brasil em 2000, numa festa de 400 pessoas em que eu toquei também e não recebi porque estava dimensionada pra 2 mil, e fez um set elogiadíssimo no Solaris, de progressive-house, e muita gente ficou incrivelmente surpresa. Não foram poucos os comentários de "por que ninguém trouxe esse cara antes pro Brasil?!". Então, pra mim a ordem que impera hoje é: sem fronteiras! Vale tudo e quem fica parado é poste! Por isso não faz tanto sentido purismos, seja de psytrance, house ou qualquer outro estilo ninguém ganha com isso, a festa fica chata e o que sobra no fim do dia são um monte de pseudo-especialistas discutindo o sexo dos anjos e frustrados com a "popularização". Música e festa, na minha opinião, tem que ser algo vivo, de vanguarda, não pra criar um gueto de entendidos, fanáticos ou que o valha.

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O nome Tribe/Solaris, sinônimo de festa cheia, não pode pesar demais na hora de valorizar um set e, nesse caso, ajudar a criar um certo modismo? Acho que esse lance do peso do nome pode ajudar, depende do ponto de vista. O modismo, numa escala maior, acaba sendo inevitável, não dá pra esperar que numa pista grande tenha gente tão antenada assim, vai desde gente mais experiente até o cara que levou a gatinha na rave pela primeira vez.... No final, de fato tem o risco de algo que, em outra circunstância seria apenas mais um ótimo set, neste caso é tratado como uma revolução cultural, um divisor de águas e é bem mais simples do que isso. Mas volta aí a tendência da necessidade da rotulação que principalmente o pessoal que está começando a curtir busca em fóruns de internet. É bem comum threads imensos sobre o que é o "verdadeiro", o que é ou não "chacota", que estilo "afinal" o fulano toca e por aí vai. Mas tem um lado bom, que é a diversidade. Só acho errado quando levantam bandeiras "artísticas", trazendo pra alguém a responsabilidade de algo que é natural e coletivo, não fruto da genialidade de alguém específico. E basta aparecer um sinal de uma nova moda para uns espertalhões se apropriarem da história e sair aí com os mais novos lançamentos da "cena mundial", enlatados e insípidos.
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Diversidade musical nunca é demais, acho eu. Mas mesmo assim, você acha que essa diversidade sonora traz algum inconveniente/prejuízo para a cena psy em si? Eu não sei se posso responder isso, porque não toco e não estou mais envolvido com a cena psy há alguns anos. Então, não acho que poderia opinar sobre algo em que não influo mais já que quem está aí na ativa é que pode saber ou não. Mas, conceitualmente, e de alguma coisa que eu entendo de uma festa psicodélica, de toda a cultura que envolve um festival open-air, do estilo de vida, acho que uma abertura de horizontes pode contribuir bastante, porque é sobre bases assim que um dia um monte de gente, e eu me incluo, se dispôs a carregar gerador nas costas no meio do mato. E não é acelerar a música, falar de ETs ou fazer remixes de música pop de FM que vai ajudar a manter o aspecto mais sincero desse tipo de festa, mas, sim, a transformar tudo em um ambiente asséptico e previsível de shopping center. A linha entre ter diversidade e seguir modismo é muito tênue, assim como a de ser eclético ou não ter personalidade.
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E essa mudança na cultura psy é boa ou ruim? Como você vê isso tudo? Eu acho que a cultura que fundamentou a criação do psytrance é muito mais abrangente que o estilo de música. Trata-se de um estilo de vida, de crenças peculiares, um lado que muita gente vive sem ter a menor idéia de quem é Infected Mushroom, Skazi ou sequer pisado em uma rave... Eu escrevi um artigo intitulado "O trance não é novo rock'n'roll" em que eu explorava exatamente esse lado, de que há uma super-valorização do que vem a ser o psytrance e na verdade estamos falando de um estilo de música, de um nicho de entretenimento e de um estilo de vida que, se por um lado um dia coexistiram de forma muito íntima, hoje andam meio em caminhos paralelos, mas separados. Na minha opinião, acho uma pena que as coisas tenham se dissociado porque, na verdade, isso poderia ser um canal de informação, cultura e quem sabe desalienação. Eu aprendi muita coisa legal indo em festas e festivais no Brasil e fora, conheci gente interessantíssima do mundo todo. Amadureci e fiz coisas que talvez, hoje em dia, um garoto de 20 anos que resolva participar disso não tenha o mesmo acesso, mas vai encontrar uma espécie de club/balada a céu aberto e voltar pra casa tão vazio quanto saiu. Acho que hoje a cultura psicodélica original sobrevive mesmo nos festivais mais longos e afastados, como o Universo Paralello, Solaris, Tranceformation e outros menores. Mas não acho que uma experiência alternativa e cultura psicodélica sejam viáveis com 10 mil pessoas disputando um chuveiro quente e verdadeiros hospitais de campanha atendendo os "excessos" o que não impede de ser uma ótima forma de se passar um feriado com os amigos.
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Trance, goa, psy, electrohouse... E esse tal de neotrance? O que você acha? (risos) Existe isso? Nunca ouvi essa nomenclatura.
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Pois é, existe. É uma linha que Sven Vath vem tocando. Ah! Eu ia responder que aposto que é um nome novo pra algo que já existia. De fato, mais um rótulo. Não posso crer que seja de fato algo que mereça um espaço específico nas prateleiras de discos.
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Olha, não deixa de ser verdade. Não é algo 100 % novo, acho eu. Tá entre o minimal, o house e o trance. Bom, preciso ouvir. Mas muito minimal alemão por aí tem um pé forte no trance, deve ser isso então. Talvez eu até esteja tocando uns neotrance nos meus sets sem saber (risos).
brigadão.