Aqui na América Latina temos o mesmo problema na hora de arrumar um único verbo para descrever a ação de projetar imagens ao vivo. No Brasil, adaptamos à primeira conjugação: "VJeizar", ou adotamos um simples projetar. Na Argentina ficou VJear. Na hora de encaixar os cabos no micro, enchufar.
Ao ir ao exterior, o verbo que mais se carrega é adaptar. Novas culturas, novas maneiras... Nesses casos, diríamos que dicionários valem para pessoas, e adaptadores para equipamentos. Projetar na Argentina é como falar portunhol. Aparentemente as palavras são as mesmas, pero no mucho. Hay diferencias. Lá, a voltagem é 220, os encaixes das tomadas são diferentes e o sistema de cores do vídeo é PAL.
Não tem problema se aqui é samba e lá é tango. Aqui português, e lá espanhol. Adaptando, a gente consegue tudo. Vide o consagrado portunhol, motivo de chacota entre os brasileiros, foi promovido internacionalmente a dialeto, junto com o spanglish. Pois é misturando que as coisas acontecem.
Casa RosadaNesse espírito chegou na América Latina o festival AVIT, nomeado A/V Sessions, pelas mãos dos nossos vizinhos porteños. Em formato reduzido, com intenções expansivas, chegou em Buenos Aires com sua primeira edição em agosto de 2004 com intenção de promover festas que funcionem como ponto de encontro e troca entre os VJs da América Latina com o mundo, além de tentar reunir a esparsa cena de VJs local. Ambicioso, porém nobre de coração, as A/V Sessions em Buenos Aires trazem para LA o objetivo de criar "consciência sobre as possibilidades desta arte através da exposição de diferentes trabalhos visuais, e híbridos audiovisuais".
Stencil Hello KirschnerA articulação para levar o evento para a cidade argentina partiu da kiken.corporation, encabeçado pelo artista multimídia, e tracker, Akira K, um dos membros do grupo 8GB. A sessão 17 de novembro de 2004 aconteceu no Cocoliche, um clube underground de Buenos Aires, que fica perto da famosa Casa Rosada, palco de grandes sacanagens, inclusive políticas, e da Plaza de Maio, que recorda tristes mães da ditadura chorando por seus filhos. Falando em política, um adendo interessante é a falta de grafites nos muros da cidade portenha, a não ser frases esparsas ovacionando o estilo Peron Vive. A cidade tem outro costume de arte urbana, os stencils. Entre eles, ou o melhor de todos, é este da foto, saudando o honorável presidente Nestor Kirschner.
La movida porteña
Frente do Flyer das A/V SessionsMovida é a palavra usada em Buenos Aires para fazer referência à cena de e-music e suas baladas. Fica difícil fazer uma comparação entre a movida de Buenos Aires e de São Paulo, mas no contexto portenho, surge uma gama de bons visualjóqueis, com idéias avançadas, ligados em tecnologia e novidades da cena no mundo, com bons trabalhos, dispostos a fazerem crescer esta arte local e realizar a integração com outras cidades da América Latina. Lá não faltam clubes "de boy", como o Pacha, outros como o Niceto que apresentam grupos como Spitfire, e alternativos, como o Eldorado.
O Cocoliche é um clube de médio porte, que abriga festas de música eletrônica. Com seus portões de ferro e chão de mármore, funciona na R. Rivadavia sob a batuta da DJ Carla Tintore. É uma casa de três andares, que abrigou as AV Sessions, inclusive a "v. 3.0". Além de ficar próximo à Casa Rosada, está ao lado do Café Tortoni, que possui arquitetura francesa, original do século XIX. É um lugar importante para a cultura local, pois em sua época áurea, foi freqüentado por grandes figuras como o escritor Jorge Luís Borges e o cantor Carlos Gardel.
A A/V Sessions 3.0 ocupou todos os pisos do Cocoliche. No térreo aconteceu a apresentação do grupo multimídia 8GB, de Buenos Aires. No terceiro andar, funcionou o lounge com a dupla DJ Chicken e VJ Jaqx, também portenhos. No subsolo apresentaram-se os VJs do Vuvvlegum (VJ Threepwood e Ark), VJ BeteRum, com participação especial da VJ Good Boy, uma das primeiras Visual Jóqueis da Espanha, que participou de diversas
edições do Sónar, além de festivais como Moonegros, Festival Internacional de Benicassim (FIB), Fórum das Culturas 2004 e outros artístico-experimentais. Neste andar tocaram os DJs Saiko (Japão), Josh Hinden (EUA), Udolph (VTL) e Mone (França). Outros VJs que já participaram das A/V Sessions: Tekhnë, Ojo Rojo e Martin Inda.
Costa do Flyer das A/V SessionsTanto Good Boy, quanto Vuvvlegum e 8GB fizeram imagens no festival Creamfields, que aconteceu no dia 13 novembro de 2004, em um local próximo ao belo Parque Natural e Reserva Ecológica Costanera Sur. Os DJs brasileiros Xerxes e Fabrício Peçanha marcaram presença no evento. (Adendo "gato por lebre": Os portenhos que foram ao festival para curtir o som do Groove Armada tiveram a honra de ver a banda de Tom Findlay e Andy Cato tocar sem Tom Findlay e Andy Cato).
La movida parada
Pois a movida portenha, com este nome tão charmoso, tomou uma rasteira e parece que não se move tão cedo. Uma tragédia, que aconteceu no fim do ano passado, estagnou a noite na capital Buenos Aires.
A "movida" de Buenos Aires foi abalada por um incêndio na casa noturna Republica de Cromagnon, durante um show de rock. O lugar estava superlotado (onde cabiam 1400 pessoas, estavam 4000) tornando-se uma armadilha mortal para o público quando uma tocha de tocha de fogo foi atirada no pano da decoração da casa. Ou seja, o espírito de porco estava solta aquela noite.
Matéria do La Nacion sobre o AVIT LA 3.0Na Republica de Cromagon, estavam presentes idosos, crianças e jovens. Mais de 190 pessoas mortas, 700 feridos e mais de cem em estado crítico. O dono da boate foi indiciado por homicídio culposo e vários eventos e shows foram cancelados no fim do ano na cidade.
As casas noturnas (lá, boliches bailables) e de show foram interditados 15 dias, depois disso, foram reabrindo devagar, depois de cumprir todas as devidas normas de segurança e receber o alvará da prefeitura.
O problema em Buenos Aires é que muito da estrutura física que abriga sua noite está um pouco afetada pela ação do tempo, desgastada. Fora isso, os donos de clubes, como sempre em nome de encher seus já cheios bolsos, tomam iniciativas irresponsáveis e como este episódio prova, criminosas, de superlotar suas casas, ou seja, como colocar quatro mil pessoas num lugar onde cabem 1.500.
Matéria do La Nacion sobre o AVIT LA 3.0Agora, as autoridades locais estão voltando a distribuir permissões para algumas casas noturnas voltarem a funcionar. Enquanto isso, a juventude de Buenos Aires, fica com poucas opções de entretenimento, ficam sem trabalho garçons, seguranças, DJs, distribuidores de bebidas e tudo mais o que a noite envolve, quem investiu em casas noturnas está perdendo seu dinheiro... As casas que voltaram a funcionar tiveram sua capacidade de público reduzida e terão que aumentar seus preços, além de uma infinidade de outras causas e consequências.
O Cocoliche ainda não recebeu permissão para voltar a funcionar, assim, as Av Sessions estão paradas por tempo indeterminado, ou até que se consiga um novo local para que voltem a acontecer.
Para os freqüentadores da noite, que gostam de se enfiar em boates e ficar como lata de sardinha, é bom ficar esperto. Para os donos de casa noturnas que querem evitar problemas futuros, é bom tomar cuidado. Aí está o exemplo do que pode acontecer.
A próxima coluna irá descrever os trabalhos apresentados na A/V Session v3.0 Audiovisual Mix Sessions.
Em tempo: Mais um software multiplataforma para manipulação de imagens ao vivo no pedaço. O GePhex, construído no sistema opensource Linux, foi portado para Windows e Macintosh. Quem quiser saber mais, pode visitar: www.gephex.org.
Tela do Programa GePhex