06.05.08 11:59

CULTURA É PASTO
Antes de jogar o comburente na polêmica, comecemos do começo com uma aserção básica, para que não partamos desorientados de antemão: no mundo da música e do cinema, duas das artes em que o comércio se tornou parte intrínseca de sua dinâmica, prêmios deste tipo não são instituições culturais que visam reconhecer o talento ou a inovação. Antes, elas são peças fundamentais do maquinário mercadológico que põe em movimento milhões de dólares e pessoas orbitando ao redor de produtos e não de obras singulares que seriam fruto do talento divino e esforço sobrehumano daquela criatura denominada artista, ao contrário do que o senso comum tende a crer.
Isto não quer dizer que o universo das "grandes artes" não obedeça a uma estrutura similar de circulação baseada na troca financeira, já que tal é impossível em um mundo capitalista como o nosso, mesmo que a quintessência de sua natureza simbólica seja a mais pura negação da esfera econômica.
Então, se não é para avaliar mérito, ou se não é para que um grupo de pares julgue a excelência de um trabalho, para que servem esses concursos de "popularidade" afinal? Simples. Para incrementar vendas, e nada mais. Portanto, é sinal de maturidade que artistas e fãs não levem para o lado pessoal ou tão a sério o resultado dessas votações, pelas quais a Dance Music sempre foi muito viciada e vitimizada desde o começo. Emulando constantemente de maneira equivocada a estrutura de consagração de formatos musicais mais populares, talvez pela própria fragilidade de sua estrutura de divulgação e repetidos fracassos de adentrar na esfera do pop em consequência disso.
SAMO, SAMO... BUT NOT QUITE THE SAME
Previsivelmente, tanto os critérios de seleção como a elaboração de parâmetros de avaliação já foram alvos de críticas desde o início, pois limitavam-se a nomes representados no catálogo do próprio portal e tendiam a refletir tão-somente o êxito comercial e a eficiência dos recursos promocionais que azeitam aquela máquina leviatânica. Os resultados, dessa forma, são menos surpreendentes ainda, e tenho certeza de que todos concordarão, seja qual for o gênero ao qual tenham mais afeição.
Em alguns casos, os premiados surpreenderem pelo disparate antes que pelo mérito, colocando em curto-circuito até mesmo convenções de gênero que, no final das contas, são somente mais um recurso classificatório que beneficia os agentes condutores desse universo midiático-musical e do qual, portanto, podem prescindir quando mais lhe convêm. Aqui temos, de um lado, coisas insólitas como Dubfire na qualidade de expoente do Techno e do Minimal, Phonique como soberano do Deep House e Booka Shade como o supra-sumo do Tech House. De outro, High Contrast e Noisia no topo no barômetro do Drum & Bass, Modeselektor e Burial em destaque na massaroca de Grime & Dubstep; Armin Van Buuren ensacolando mais um título nobiliárquico no reino do Trance; Deadmau5 se destacando como "pessoa mais influente" - decorrência óbvia da conquista dos títulos em Electro House, Progressive House e Melhor Single - e assim por diante.
BORATTOCRACIA
Porém, em meio a tanta falta de novidades, uma vale ser ressaltada por ser prata da casa: nosso já sagrado e consagrado Gui Boratto ficou em vice tanto no meio do Techno como na categoria um tanto vaga da "Eletrônica". Duas semi-vitórias meio pírricas, mas válidas do mesmo jeito. Todo sabemos de sua competência e talento para compor faixas cativantes e de soberba qualidade e é gratificante ver que ele está alcançado a proeminência global que seus esforços merecem.
Aqui deixo os leitores ao sabor de suas próprias conclusões, mesmo porque já tirei a minha e o que expus acima não pretende ser nada além de uma breve explanação dos mecanismos que geram tais listagens e o efeito que se espera deles. O que não significa exatamente que os artistas nomeados ou mesmo agraciados com os louros da vitória não possuam qualidades meritórias algumas e sim que eles não são representativos do que se convenciona chamar de prodígio ou mesmo indicativos dos próximos rumos da música eletrônica.
Seja o Grammy, o VMA, o Oscar ou o BMA, qualquer semelhança dessas premiações com uma parada militar nas comemorações de feriado nacional num regime totalitário não é mera coincidência, já que os objetivos são os mesmos: exaltar quem está no topo para que permaneça lá.
Monga ou eleitora-média?

RESULTADOS
Best Breakbeat Artist: Plump DJs
Best Chill Out Artist: Trentemoller
Best Deep House Artist: Phonique
Best Drum & Bass Artist: High Contrast
Best Dubstep & Grime Artist: Modeselektor
Best Electro House Artist: Deadmau5
Best Electronica Artist: Trentemoller
Best Hard Dance Artist: BK
Best Hardcore Artist: DJ Isaac
Best House Artist: Axwell
Best Minimal Artist: Dubfire
Best Progressive House Artist: Deadmau5
Best Psy Trance Artist: Ace Ventura
Best Tech House Artist: Booka Shade
Best Techno Artist: Dubfire
Best Trance Artist: Armin Van Buuren
Best Remix of 2007: Dirty South ‘Let It Go feat. Rudy' (Axwell Remix)
Best Single of 2007: Deadmau5 ‘Not Exactly'
The Most Influential, Forward-thinking and Relevant Person in Electronic Music in 2007.
Winner: Deadmau5
Veja os resultados completos AQUI.

Tenho consciência que o que eu escrevi nao vai mudar absolutamente nada a curto prazo, mas muitos usuários e votantes responderam ali no board deles, e alguns dos depoimentos foram bem interessantes.
Digo isso por experiência própria e vc deve +- saber do que eu to falando. Cada um sabe se quer participar de um circo ou não.
No mais, entendo seu pesar pela bestificação da coisa, me incomoda também. Porém a internet dá sim acesso a coisas interessantes... Agora, ela não tem culpa da acomodação intelectual média das pessoas, e ai entra a maquina marketeira para aproveitar a preguiça mental das pessoas para fazer negócio.