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Mangá, né?
25.02.08 22:20
SINESTESIA
Parece que foi ontem a primeira vez em que este seminal filme começou a criar uma comoção generalizada no Ocidente. Há duas décadas a obra de Katsuhiro Otomo ganhava notoriedade global e levava toda uma nova geração de apaixonados tanto por ficção científica como por desenhos animados a um universo estético totalmente novo. Não que Mangá e Anime não fossem conhecidos no lado de cá do Pacífico, mas "Akira" elevou o gênero a um outro nivel de popularidade e profundidade, tornando-se o ícone de toda uma geração mundial de nerds e ciberfanáticos.

A conexão com a música eletrônica e o minimalismo também começou a se dar em grande parte por decorrência da trilha criada pelo coletivo artístico Geinoh Yamashirogumi, claramente influenciada por Steve Reich e Phillip Glass. Como em toda trilha que faz bem seu serviço, som e imagem conectam-se numa obra coesa e estimulante, onde cada passagem parece estabelecer uma relação de perfeita reciprocidade.

E a ligação entre estes imaginários que hoje nos parecem tão aparentados não pára por aí. Katsuhiro Otomo também se vinculou mais ainda à já efervescente cena eletrônica local em meados dos noventa, ao fornecer um dos vídeos mais lisérgicos já feitos para um single de Techno, o de "EXTRA" do célebre conterrâneo Ken Ishii. Musicalmente, "EXTRA" é uma viagem alucinante formada por texturas variadas. Oscilando entre o frenesi rítmico de loops bem detroitianos e uma panelada percussiva de um lado, enquanto de outro, drop-outs forrados por synths ora etéreos, ora enérgicos, provêm as variações de ambiência e andamento que dão o tom geral desta fantástica faixa.

O vídeo, por sua vez, conta com todos os elementos bizarros que compõem a imagética própria à obra de Otomo: personagens estranhos que se congregam em uma estética bem particular e bizarra, todos enredados em uma tessitura de perversão e inocência entecruzados e mesclados, numa atmosfera de doce onirismo e cruel violência. Isto tudo tendo como pano de fundo paisagens metropolitanas futuristas, para as quais Tóquio é uma inspiração mais que óbvia.

A sinergia entre a narrativa visual e a musical é arrebatadora, ainda que relativamente curta, como podemos ver no link abaixo:



GESAMTKUNSTWERK
Claro que esta é apenas uma faceta entre muitas daquele universo plástico que veio a tornar-se íntima e diretamente relacionado à música eletrônica no decorrer da década passada. Entra as muitas que marcaram esta época, podemos ainda citar o minimalismo da Plus 8 e Minus, a pegada industrial da Tresor, a influência das HQs norte-americanas no Underground Resistance, o sci-fi vetorial do Magnet Studio (Metalheadz, Ram, Valve, Virus), a extravagância eclética e divertida da Designers Republic, entre muitos outros exemplos que se tornaram parte do cânone de identidade visual da eletrônica. Mas o esfusiante colorido e o exagero mimético dos Animes e Mangás, sua incomparável força visual, foram especialmente popularizados por outras investidas memoráveis, como os flyers da Universe, as festas mais absurdas de música eletrônica dos 90 e inspiração para os grandes festivais de hoje (o Tribal Gathering e o Big Love são crias da mesma empresa); o divertido e inofensivo curta-metragem sonorizado pelo Daft Punk, "Interstella 5555: The 5tory of the 5ecret 5tar 5ystem" ou até mesmo as tão lindas filipetas do nosso querido e saudoso Lov.e Club. Sem dúvida alguma, tudo isto deixou marcas indeléveis na memória de todos nós.

Também vale lembrar que o grosso da geração - hoje protobalzaquiana - que majoritariamente se refestela ao som das maquininhas não só foi criada entre os 80 e 90 numa dieta estrita de Hentai, Robotech, Zillion, Space Boy, Transformers, muito Nintendo e as tranqueiras usuais da TV japonesa, mas também assistiu a uma crescente invasão da tecnologia, o substrato mesmo de todo esse ideário futurista, em sua vida cotidiana. Inegavelmente, a música que ouvimos e fazemos é nutrida por toda essa força imaginativa, de toda essa fantasia feita de circuitos, códigos binários, cibernética, relatividade, andróides, extraterrestres, engenharia genética, nanotecnologia e tantos outros tópicos tão caros aos nossos sonhos e, consequentemente, essenciais para nossa criatividade.

Apesar de, recentemente e para desgosto da legião de fãs do original e de Anime em geral, Hollywood ter anunciado que pretende pagar um tributo um tanto suspeito ao clássico que é "Akira", é sempre importante saber localizar nossas próprias referências, pois elas compõem aquilo mesmo que conhecemos por identidade, por mais fluida que ela seja. E, por mais que esta proposta de longa-metragem a ser produzida por Leonardo DiCaprio (!!!) configure um projeto potencialmente até mais surreal e grotesco do que a proposta estética de Otomo e que, em minha opinião pessoal, só vingaria se traduzido por um Cronenberg ou um Aronofsky na melhor das hipóteses - ou, com sorte, um Miike ou qualquer dos geniais diretores coreanos da atualidade já habituados a esta tarefa - só podemos esperar pelo melhor.

Enquanto isso, fiquemos com o que conhecemos e apreciamos, um momento magnífico de uma obra que nos fala diretamente, na linguagem apropriada a corações e mentes cheios de sonhos cada vez mais tangíveis.

Raul Cornejo
Raul Cornejo (madhihatter @ gmail.com)
sheer persuasion
comentários
Cj Hal
Cj Hal (04.03.08)
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...e ai que Dicaprio vai ser o kaneda e tokio vira nova york... Otomo resolveu garantir a aposentadoria. =(
Lucio Morais
Lucio Morais (26.02.08)
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a melhor animaçao de todas!
Thiago Lopesss
Thiago Lopesss (26.02.08)
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Assisti Akira ontem. Incrível como a trilha sonora tem muita coisa que se ouve hoje em tudo quanto é trackzinha minimal. Não só isso, mas o ritmo do filme em si, a alegoria moderna pra falar do grande trauma do povo japonês... putz, sou mto suspeito. é muito bom mesmo.
Raul Aguilera
Raul Aguilera (26.02.08)
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Akira rules!