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Beatport Music Awards
06.05.08 11:5915 comentários
tchanans

CULTURA É PASTO
Antes de jogar o comburente na polêmica, comecemos do começo com uma aserção básica, para que não partamos desorientados de antemão: no mundo da música e do cinema, duas das artes em que o comércio se tornou parte intrínseca de sua dinâmica, prêmios deste tipo não são instituições culturais que visam reconhecer o talento ou a inovação. Antes, elas são peças fundamentais do maquinário mercadológico que põe em movimento milhões de dólares e pessoas orbitando ao redor de produtos e não de obras singulares que seriam fruto do talento divino e esforço sobrehumano daquela criatura denominada artista, ao contrário do que o senso comum tende a crer.

Isto não quer dizer que o universo das "grandes artes" não obedeça a uma estrutura similar de circulação baseada na troca financeira, já que tal é impossível em um mundo capitalista como o nosso, mesmo que a quintessência de sua natureza simbólica seja a mais pura negação da esfera econômica.

Então, se não é para avaliar mérito, ou se não é para que um grupo de pares julgue a excelência de um trabalho, para que servem esses concursos de "popularidade" afinal? Simples. Para incrementar vendas, e nada mais. Portanto, é sinal de maturidade que artistas e fãs não levem para o lado pessoal ou tão a sério o resultado dessas votações, pelas quais a Dance Music sempre foi muito viciada e vitimizada desde o começo. Emulando constantemente de maneira equivocada a estrutura de consagração de formatos musicais mais populares, talvez pela própria fragilidade de sua estrutura de divulgação e repetidos fracassos de adentrar na esfera do pop em consequência disso.

SAMO, SAMO... BUT NOT QUITE THE SAME
Previsivelmente, tanto os critérios de seleção como a elaboração de parâmetros de avaliação já foram alvos de críticas desde o início, pois limitavam-se a nomes representados no catálogo do próprio portal e tendiam a refletir tão-somente o êxito comercial e a eficiência dos recursos promocionais que azeitam aquela máquina leviatânica. Os resultados, dessa forma, são menos surpreendentes ainda, e tenho certeza de que todos concordarão, seja qual for o gênero ao qual tenham mais afeição.

Em alguns casos, os premiados surpreenderem pelo disparate antes que pelo mérito, colocando em curto-circuito até mesmo convenções de gênero que, no final das contas, são somente mais um recurso classificatório que beneficia os agentes condutores desse universo midiático-musical e do qual, portanto, podem prescindir quando mais lhe convêm. Aqui temos, de um lado, coisas insólitas como Dubfire na qualidade de expoente do Techno e do Minimal, Phonique como soberano do Deep House e Booka Shade como o supra-sumo do Tech House. De outro, High Contrast e Noisia no topo no barômetro do Drum & Bass, Modeselektor e Burial em destaque na massaroca de Grime & Dubstep; Armin Van Buuren ensacolando mais um título nobiliárquico no reino do Trance; Deadmau5 se destacando como "pessoa mais influente" - decorrência óbvia da conquista dos títulos em Electro House, Progressive House e Melhor Single - e assim por diante.

BORATTOCRACIA
Porém, em meio a tanta falta de novidades, uma vale ser ressaltada por ser prata da casa: nosso já sagrado e consagrado Gui Boratto ficou em vice tanto no meio do Techno como na categoria um tanto vaga da "Eletrônica". Duas semi-vitórias meio pírricas, mas válidas do mesmo jeito. Todo sabemos de sua competência e talento para compor faixas cativantes e de soberba qualidade e é gratificante ver que ele está alcançado a proeminência global que seus esforços merecem.

Aqui deixo os leitores ao sabor de suas próprias conclusões, mesmo porque já tirei a minha e o que expus acima não pretende ser nada além de uma breve explanação dos mecanismos que geram tais listagens e o efeito que se espera deles. O que não significa exatamente que os artistas nomeados ou mesmo agraciados com os louros da vitória não possuam qualidades meritórias algumas e sim que eles não são representativos do que se convenciona chamar de prodígio ou mesmo indicativos dos próximos rumos da música eletrônica.

Seja o Grammy, o VMA, o Oscar ou o BMA, qualquer semelhança dessas premiações com uma parada militar nas comemorações de feriado nacional num regime totalitário não é mera coincidência, já que os objetivos são os mesmos: exaltar quem está no topo para que permaneça lá.

Monga ou eleitora-média?
Monga ou eleitora-média?


RESULTADOS
Best Breakbeat Artist: Plump DJs
Best Chill Out Artist: Trentemoller
Best Deep House Artist: Phonique
Best Drum & Bass Artist: High Contrast
Best Dubstep & Grime Artist: Modeselektor
Best Electro House Artist: Deadmau5
Best Electronica Artist: Trentemoller
Best Hard Dance Artist: BK
Best Hardcore Artist: DJ Isaac
Best House Artist: Axwell
Best Minimal Artist: Dubfire
Best Progressive House Artist: Deadmau5
Best Psy Trance Artist: Ace Ventura
Best Tech House Artist: Booka Shade
Best Techno Artist: Dubfire
Best Trance Artist: Armin Van Buuren
Best Remix of 2007: Dirty South ‘Let It Go feat. Rudy' (Axwell Remix)
Best Single of 2007: Deadmau5 ‘Not Exactly'
The Most Influential, Forward-thinking and Relevant Person in Electronic Music in 2007.
Winner: Deadmau5



Veja os resultados completos AQUI.
Raul Cornejo
Raul Cornejo (madhihatter @ gmail.com)
sheer persuasion
É NOISIA, MANO!
30.04.08 16:184 comentários
Noisia
A Holanda possui uma reputação meio que errática no meio da música eletrônica. Se, por um lado, nos forneceu produtos duvidosos como Tiesto e vários outros "Vans" que acabaram por guiar o Trance em seu descenso (ascensão, diriam aqueles que se banham na lama do sucesso comercial sem escrúpulos). Por outro, também nos agraciou com talentos fantásticos, como Peter Slaughuis, Orlando Voorn, Steve Rachmad e muitas outras referências essenciais, entre elas selos do calibre da Rams Horn, Clone, DJax e Eevo-Lute. Se formos mais longe ainda, podemos encontrar até mesmo pedras preciosas do pop do quilate de Urban Dance Squad. Mas é na eletrônica mesmo que os elfos maconheiros e libertinos de tamanco da terra dos moinhos de vento conseguiram fincar sua bandeira firmemente.

Fato é que sua entrada nas terras acidentadas do Drum & Bass foi até que meio tardia, tendo iniciado sua contribuição para o rol de produtores e DJs de destaque no gênero apenas na virada deste século. Aqui se contam alguns nomes de peso (musicalmente), como Black Sun Empire e Cern, além de conter algumas das festas mais fervidas do Velho Continente no calendário mundial do gênero. E é aqui que se enquadra o jovem trio formado por Nik Roos, Thijs De Vlieger e Martijn Van Sonderen , que já se tornou sensação entre os conhecedores há algum tempo.


UP UP AND AWAY
Ao debruçarmo-nos sobre sua curta carreira, fica notório o quanto amadureceram desde suas primeiras investidas no árduo caminho da dedicação integral à música, delineando velzomente um percurso firme de construção de uma das mais sólidas reputações do cenário atual. Feito inegável se considerarmos o quanto seu renome se expandiu nos últimos tempos, desde releases por selos tarimbados como Moving Shadow, Ram, Subtitles e Virus, até chegar ao prestígio de convites para reinterpretar ninguém menos que famosinhos como Moby e Robbie Williams.
Está subindo. Vai entrar?
Está subindo. Vai entrar?


Claro que eles são indiscutivelmente talentosos, e isto se vê muito por aí. Mas o que os destaca do resto - especialmente em uma cena que tende se levar a sério ao ponto do paroxismo como a do D&B - é o seu singular despojamento, e isto se reflete imensamente em seu modo de fazer música. A cada um de seus trabalhos fica evidente que uma verve pueril e muita perícia técnica são elementos essenciais em seu som tão particular e bem-sucedido, recheado de molecagens, tanto na postura quanto na abordagem propriamente dita. Não se enganem aqueles que pensam que eles gostam de ficar cavocando em referências kitsch moribundas de 2 décadas atrás ou brincando de fazer música para superar algum percalço da pós-adolescência. O negócio deles é uma engenharia sonora bem sofisticada a serviço da pista, recheada de conceitos tão sérios quanto de princípios simples. Fazer boa música e divertir-se no processo.



Pode parecer paradoxal procurar fazer um som cabeçudo e impertinente, mantendo uma atitude irreverente com um sério compromisso estético, mas é esse o melhor legado que a Rave Music nos deixou, de KLF a Altern-8 ou do velho New Beat nativo. E o Noisia cumpre com louvor a tarefa de fazer jus a uma herança raver sobremaneira rica como é a de seu país natal. Nada que se torne um peso ou uma tradição a ser renegada, e sim muito mais uma inspiração para todas as propostas em que se envolvem. Sendo versáteis o suficiente para encarar os desafios de produção de espectros tão diversos como o D&B, passando pelos Breaks e ocasionais flertes com as modalidades Electro-esque de agora.

SOLIPSISTA, MA NON TROPPO...
Então quer dizer que um artista ainda pode ter comprometimento com qualidade e satisfazer a seus impulsos hedonistas? Seguindo o exemplo do Noisia, isso é bem possível. Prova cabal disto é o fato de serem os mais novos convidados a compilar o volume vindouro da série Fabric: Live. O repertório, até onde pode ser constatado pela tracklist, é composto por alguns sólidos números do D&B atual e quase todo o catálogo de lançamentos do trio até hoje.

01 Noisia & Phace - Cannonball - Vision Recordings
02 The Qemists - Stompbox (Spor Remix) - Ninja Tune
03 Phace - Alive (Dub) - Phace
04 The Upbeats - Anti Social - Cyanide Recordings
05 Break - Splash Step - Quarantine
06 Noisia - Diplodocus (Dub) - Noisia 21
07 Spor - Claret's March - Lifted
08 Noisia - Head Knot (Dub) - Noisia
09 Noisia - The Tide - Vision Recordings
10 Icicle - Nowhere - (Dub) - Icicle
11 Noisia & Phace - The Feed - Subtitles
12 Sabre - Global (Dub) - Subtitles
13 Phace - Cold Champagne (Dub) - Phace
14 The Upbeats - Panic - Subtitles
15 Noisia & Black Sun Empire - Infusion - Vision Recordings
16 Noisia - Split The Atom (Instrmtl) - Division Recordings
17 Spor - Mordez Moi - Division Recordings
18 Noisia - Seven Stitches - Division Recordings
19 Noisia - Brown Time - Division Recordings
20 Noisia - Stigma (Dub) - Noisia
21 Moby - Alice (Noisia Remix) - EMI
22 Noisia - Concussion - Vision Recordings
23 Noisia - Façade (VIP) - Ram Records
24 Ed Rush & Optical - Medicine (Matrix Remix) - Virus
25 Noisia & The Upbeats - Mudslide - Vision Recordings
26 Misanthrop - Viperfish (VIP) - Subtitles
27 Noisia - Crank (Dub) - Noisia
28 Noisia & The Upbeats - Creep Out - Non Vogue
29 Noisia - Square Feet - Division Recordings

Enfim, o que se ouve na quadragésima edição da série é justamente um apanhado geral da melhores qualidades do trio, já que eles descaradamente puxam a brasa para sua sardinha na seleção, seja no que tange à sua própria produção musical ou de seu selo, o Vision, cujo próprio nome é um anagrama bem bolado se sua nomenclatura, assim como sua subsidiaria, Division. Contudo, não deixa de ser uma boa chance de finalmente conferir porque eles andam fazendo tanto barulho - intencional e inadvertidamente - não só na cena em que se originaram, mas reverberando em direção à estratosfera do crossover.



Noisia
Raul Cornejo
Raul Cornejo (madhihatter @ gmail.com)
sheer persuasion
Dead dread... long live the dread.
19.03.08 08:00Deixe seu comentário
DREAD COME TO CONQUER!
Mikey Dread
Mikey Dread
Poucos não iniciados nos arcanos do Dub e do Reggae em geral devem ter ouvido falar dessa mítica figura que se tornou um dos mais proeminentes promotores da música jamaicana no impériop do Pop. Mikey Dread, nascido Michael Campbell na cidade de Port Antonio, era uma lenda em qualquer acepção da palavra. Produtor talentoso, engenheiro preciso, A&R cuidadoso e um artista profícuo, ele encarnou muitas das facetas que eram essenciais para poder sentar-se no trono reservado aos grandes da ilha.


Nos últimos anos vivia longe de sua terra natal, em Connecticut, mantendo sua farta produtividade e renome como seletor e produtor, consolidando uma carreira em que se contam inúmeras participações em projetos que ajudaram a moldar o som jamaicano no decorrer de sua longa tradição e promovendo através das rádios o melhor que este universo tinha a oferecer.


Sem duvida ele faleceu jovem, quase tanto quanto o outro herói do Dub, King Tubby. Mas nos deixou um legado musical incontestável, no qual o ponto célebre foi a co-autoria e mixagem de "Sandinista" do The Clash. DATCUm episódio que ajudou a colocar em maior evidência - agora em um âmbito global - não apenas o seu trabalho, mas também o de seus conterrâneos. Tarefa esta na qual se manteve incansável através do fôlego que dava a seu selo Dread At The Controls, divulgando uma variedade de novos e velhos artistas como Augustus Pablo, Sugar Minott, Hopteon Lindo e Earl Sixteen (que deve ser mais lembrado hoje em dia por sua colaboração com o Leftfield em "Release The Pressure" e a participação em "Tomorrow Come Today" do Gorillaz).

Mais uma figura que nos deixará saudosos por ter nos apresentado momentos musicais maravilhosos. Entre alguns dos melhores - e como prato ital do dia - segue abaixo "Bankrobber" do Clash, para aqueles que, como eu, têm em "Sandinista" seu álbum favorito da banda.


Raul Cornejo
Raul Cornejo (madhihatter @ gmail.com)
sheer persuasion
B12
03.03.08 01:021 comentário


EACH ONE AN EXPLORER
A dupla formada por Michael Golding e Steve Rutter já foi inserida naquele tão esnobe panteão do Techno que se convencionou delimitar pelo adjetivo "intelligent". Claro que a companhia era célebre e agradável: Kirk DeGiorgio, Black Dog, Stasis, artistas de vanguarda de selos como Warp, Likemind, Irdial, Rephlex, Apollo, Eevo-Lute, ART e um punhado de outros, mas não muitos. Afinal, o lance - ou conceito, como diriam alguns na época - era elitista e sobremaneira esotérico, somente acessível para os sortudos ou bem-informados o suficiente para sintonizar o lendário programa de Colin Dale na Kiss FM. Assim como seu descendente estilístico direto, a tal da IDM (Intelligent Dance Music, e aqui notamos que a pretensão ficou impressa no genoma), a proposta era se distanciar do que era mais comum e mundano nas pistas de dança. Grosso modo, o conceito era uma clara distinção do som "fácil" das raves e da euforia exagerada que nestas festas encontrava seu nicho privilegiado.

Trabalhando sob variados disfarces (Musicology, Redcell, Cmetric, 2001), mas sempre mantendo a solidez de uma seleção apurada de sons e um tino incomparável para complexidades rítmicas que ainda detinham um potente e irresistível groove, a dupla se consolidou no começo dos 90 no cenário do Techno através de uma miríade de releases em que melodias refinadas e harmonias intrincadas desempenhavam papel central. Aliás, esta é a especialidade do B12 e acabou por se cristalizar como sua característica mais marcante no decorrer de uma longa carreira, ainda que com um grande hiato nos últimos dez anos.

Entre os escassos números lançados pelo duo, destacam-se os dois álbuns seminais pela Warp, "Electro-Soma" de 1993, que na realidade é uma compilação de faixas essenciais lançadas até aquele momento sob seus diversos pseudônimos, agrupados como B12, e "Time Tourist" de 1996, um álbum no sentido estrito do termo e cujo fio condutor é uma jornada mais abstrata, formada por texturas primorosas, jogadas harmônicas elaboradas e levadas sofisticadas. Em ambos transparece a temática conceitual que permeia a obra deles como um todo: um enredo de ficção científica bem particular, no interior do qual uma inteligência exterior e superior à humana se comunica musicalmente conosco. Cada som codifica uma idéia, cada faixa, uma mensagem, de alienígenas situados nos recônditos da galáxia ou uma raça sobre-humana que habita as profundezas do planeta. Seja qual for a hipótese preferida, a linguagem por eles utilizada só pode ser traduzida musicalmente e compreendida sensorialmente, em um universo em que tempo e espaço são totalmente relativos.



Felizmente, o longo período ocioso apenas confirmou duplamente a atemporalidade de sua música: por um lado, seus clássicos discos alcançaram preços exorbitantes e tornaram-se cada vez mais raros - os lançamentos pela Likemind ou o seu próprio B12, por exemplo, chegam a valores um tanto exagerados - e catalisou a reação do público ao seu inesperado retorno no biênio de 2004-2005.

Aqui temos dois registros das mais recentes aparições ao vivo destes excêntricos e militantes mensageiros interestelares. Uma em 2005 no Norberg Festival e outra no final do ano passado em Londres. Para quem quiser se aprofundar no ideário da missão em que eles se engajaram desde 1991 e como lograram mantê-la sempre atualizada face às várias vogas que surgiram e feneceram ao longo de sua carreira, vale a pena visitar a sua base-avançada virtual. Boa viagem.

B12 RECORDS

B12 Live @ Norberg Festival - Julho de 2005

B12 Live @ I Love Acid - 26 de outubro de 2007
Raul Cornejo
Raul Cornejo (madhihatter @ gmail.com)
sheer persuasion
Mangá, né?
25.02.08 22:204 comentários
SINESTESIA
Parece que foi ontem a primeira vez em que este seminal filme começou a criar uma comoção generalizada no Ocidente. Há duas décadas a obra de Katsuhiro Otomo ganhava notoriedade global e levava toda uma nova geração de apaixonados tanto por ficção científica como por desenhos animados a um universo estético totalmente novo. Não que Mangá e Anime não fossem conhecidos no lado de cá do Pacífico, mas "Akira" elevou o gênero a um outro nivel de popularidade e profundidade, tornando-se o ícone de toda uma geração mundial de nerds e ciberfanáticos.

A conexão com a música eletrônica e o minimalismo também começou a se dar em grande parte por decorrência da trilha criada pelo coletivo artístico Geinoh Yamashirogumi, claramente influenciada por Steve Reich e Phillip Glass. Como em toda trilha que faz bem seu serviço, som e imagem conectam-se numa obra coesa e estimulante, onde cada passagem parece estabelecer uma relação de perfeita reciprocidade.

E a ligação entre estes imaginários que hoje nos parecem tão aparentados não pára por aí. Katsuhiro Otomo também se vinculou mais ainda à já efervescente cena eletrônica local em meados dos noventa, ao fornecer um dos vídeos mais lisérgicos já feitos para um single de Techno, o de "EXTRA" do célebre conterrâneo Ken Ishii. Musicalmente, "EXTRA" é uma viagem alucinante formada por texturas variadas. Oscilando entre o frenesi rítmico de loops bem detroitianos e uma panelada percussiva de um lado, enquanto de outro, drop-outs forrados por synths ora etéreos, ora enérgicos, provêm as variações de ambiência e andamento que dão o tom geral desta fantástica faixa.

O vídeo, por sua vez, conta com todos os elementos bizarros que compõem a imagética própria à obra de Otomo: personagens estranhos que se congregam em uma estética bem particular e bizarra, todos enredados em uma tessitura de perversão e inocência entecruzados e mesclados, numa atmosfera de doce onirismo e cruel violência. Isto tudo tendo como pano de fundo paisagens metropolitanas futuristas, para as quais Tóquio é uma inspiração mais que óbvia.

A sinergia entre a narrativa visual e a musical é arrebatadora, ainda que relativamente curta, como podemos ver no link abaixo:



GESAMTKUNSTWERK
Claro que esta é apenas uma faceta entre muitas daquele universo plástico que veio a tornar-se íntima e diretamente relacionado à música eletrônica no decorrer da década passada. Entra as muitas que marcaram esta época, podemos ainda citar o minimalismo da Plus 8 e Minus, a pegada industrial da Tresor, a influência das HQs norte-americanas no Underground Resistance, o sci-fi vetorial do Magnet Studio (Metalheadz, Ram, Valve, Virus), a extravagância eclética e divertida da Designers Republic, entre muitos outros exemplos que se tornaram parte do cânone de identidade visual da eletrônica. Mas o esfusiante colorido e o exagero mimético dos Animes e Mangás, sua incomparável força visual, foram especialmente popularizados por outras investidas memoráveis, como os flyers da Universe, as festas mais absurdas de música eletrônica dos 90 e inspiração para os grandes festivais de hoje (o Tribal Gathering e o Big Love são crias da mesma empresa); o divertido e inofensivo curta-metragem sonorizado pelo Daft Punk, "Interstella 5555: The 5tory of the 5ecret 5tar 5ystem" ou até mesmo as tão lindas filipetas do nosso querido e saudoso Lov.e Club. Sem dúvida alguma, tudo isto deixou marcas indeléveis na memória de todos nós.

Também vale lembrar que o grosso da geração - hoje protobalzaquiana - que majoritariamente se refestela ao som das maquininhas não só foi criada entre os 80 e 90 numa dieta estrita de Hentai, Robotech, Zillion, Space Boy, Transformers, muito Nintendo e as tranqueiras usuais da TV japonesa, mas também assistiu a uma crescente invasão da tecnologia, o substrato mesmo de todo esse ideário futurista, em sua vida cotidiana. Inegavelmente, a música que ouvimos e fazemos é nutrida por toda essa força imaginativa, de toda essa fantasia feita de circuitos, códigos binários, cibernética, relatividade, andróides, extraterrestres, engenharia genética, nanotecnologia e tantos outros tópicos tão caros aos nossos sonhos e, consequentemente, essenciais para nossa criatividade.

Apesar de, recentemente e para desgosto da legião de fãs do original e de Anime em geral, Hollywood ter anunciado que pretende pagar um tributo um tanto suspeito ao clássico que é "Akira", é sempre importante saber localizar nossas próprias referências, pois elas compõem aquilo mesmo que conhecemos por identidade, por mais fluida que ela seja. E, por mais que esta proposta de longa-metragem a ser produzida por Leonardo DiCaprio (!!!) configure um projeto potencialmente até mais surreal e grotesco do que a proposta estética de Otomo e que, em minha opinião pessoal, só vingaria se traduzido por um Cronenberg ou um Aronofsky na melhor das hipóteses - ou, com sorte, um Miike ou qualquer dos geniais diretores coreanos da atualidade já habituados a esta tarefa - só podemos esperar pelo melhor.

Enquanto isso, fiquemos com o que conhecemos e apreciamos, um momento magnífico de uma obra que nos fala diretamente, na linguagem apropriada a corações e mentes cheios de sonhos cada vez mais tangíveis.
Raul Cornejo
Raul Cornejo (madhihatter @ gmail.com)
sheer persuasion
Vontade de potência - Parte 2
19.02.08 06:002 comentários
Heavier Bigger Lower Louder
Heavier Bigger Lower Louder
VALVULADINHO É MAIS GOSTOSO
Prosseguindo com nosso breve informativo sobre o maquinário pesado e o povo lesado responsáveis pelo delírio sônico ao qual já estamos (ou deveríamos estar) habituados, passaremos ao que ocorre atualmente de mais interessante no reino dos sound systems. E, neste caso, fica difícil não fazer menção a um dos empreedimentos mais tresloucados neste âmbito. Um que só poderia ter surgido no meio daquela nação de audiófilos e hedonistas tão fanática por baixas frequências: o Drum & Bass.

O Valve Sound System é uma monstruosidade geradora dessas ondas. Fruto da dedicação e apreço por minúcias técnicas da famosa dupla Dillinja e Lemon D, o que inclui também seu próprio estúdio de corte de dubplates, já que tocá-los neste formato é condição sine qua non para os DJs do gênero que quiserem ter o privilégio de incluir em seus sets algum sucesso da dupla.

A militância anti-digital vai até o extremo de terem feito afirmações na imprensa de que jamais o catálogo de seus selos Valve, Test e Cybotron seria digitalizado. Quem quisesse algum item esgotado teria de esperar os represses. Com esta weltanschauung um tanto extremista e muita grana em caixa - afinal praticamente tudo que foi lançado especialmente por Dillinja nos últimos 10 anos se tornou um estrondoso (literalmente!) sucesso - eles investiram tudo na aquisição de potentes subwoofers para montar a mais potente radiola do mundo.

LEVANTAMENTO DE PISO
Dillinja então decidiu fazer jus a seu nome, um tributo ao lendário DJ jamaicano Dillinger, e se empenhou, junto a Lemon D, em desenhar o Valve Sound System para não apenas realizar eventos que promovessem seu selo, mas para estabelecer um novo benchmark na ignorância acústica. As epecificações técnicas são assustadoras per se, contando com 6 jogos de falantes, cada um com as dimensões de oito pés de largura por nove de altura, sendo normalmente carregados em três caminhões de 7,5 toneladas.

Mas os efeitos são ainda mais aterradores. Eu pessoalmente conheço pessoas que passaram mal durante a estréia no club Fabric em 2001, gente que não aguentou as ondas abissais ressoando na caixa torácica e chegou a vomitar. O negócio todo é tão alto (na verdade, baixo, dadas as frequências priorizadas) que todos os frequentadores ganharm protetores auriculares. No entanto, da mesma maneira, isso não é suficiente para proteger o corpo da pancadaria toda.

Até o Guinness Book Of Records se interessou pela brincadeira ao tentar incluí-lo na sua listagem dos maiores e melhores do mundo na óbvia categoria "loudest sound system". Algo que, de acordo com rumores, não impressionou tanto assim aos criadores do monstro. Lemon D bancou o blasé e disse "it's not about being the loudest, but the best".

Portanto, como já se tornou habitual neste singelo espaço, logo abaixo temos mais um breve documentário com os mentores dessa insanidade. Explicando quais são as raízes de sua fascinação pelas basslines potentes, citando o som de Sheffield especialmente - o Bleep Techno das warehouse raves e da Warp no começo, LFO e Unique 3 - como influência e mostrando uma forma contemporânea através da qual aquela rica tradição jamaicana vai se mantendo viva. Sempre em grande parte derivada dos esforços de muitos apaixonados pela música e intensamente devotados ao entretenimento de seus pares. Claro que, às vezes, com um certo tom de exagero. Mas não é justamente este tipo de coisa que a paixão nos leva fazer?

Raul Cornejo
Raul Cornejo (madhihatter @ gmail.com)
sheer persuasion
Vontade de potência - Parte 1
14.02.08 19:362 comentários


Estes equipamentos são parte intrínesca de toda a intensa vida cultural que orbita ao redor da música caribenha, especialmente a jamaicana. Sendo parte de uma tradição que remonta aos anos 50 e a explosão mundial da música negra de origem norte-americana, eles acabaram por se tornar um dos símbolos mais fortes que compõem toda a imagética vinculada a essa cultura.

Para além da imponência e da simbologia encerrada tanto no equipamento quanto na equipe proprimante dita (engenheiro, selector, DJ/MC, o magnata), é toda uma indústria musical sustentada e propagada através desse poderoso sistema de divulgação e promoção das obras. Tocar dubplates fresquinhos e versions especiais e exclusivas é algo característico dos soundclashes (batalhas entre sound systems) e estes, por sua vez, são uma parte bem típica da dinâmica da cena como um todo.

Ademais, do ponto de vista do público, os eventos promovidos por cada grupo configuram lugar e um momento de congregação ao redor de tudo que mais interessa: a música. É através de toda essa aparelhagem que a manutenção dos mitos se efetua. Desafios são lançados, novas lendas são criadas e as velhas se reafirmam em batalhas sonoras. È a sublimação ritual do conflito, comum a muitas formas de expressão cultural oriundas das comunidades afro-americanas fruto da diáspora.

O movimento inverso também tomou forma através da volumosa instalação de imigrantes caribenhos em terras britânicas no contrafluxo colonial que se fez presente nos meados do século XX em diante. Carregando consigo toda essa barulhenta e alegre herança das ilhas e estabelecendo seu posto avançado para a ocupação musical do globo corporificada pela popularidade do Reggae e seus aparentados. Algo que, aqui em terras brasileiras, se manifestou com mais força nas regiões boreais do Maranhão e do Pará, fenômeno em grande parte tributário da proximidade geográfica das ilhas caribenhas.

O breve documentário que segue abaixo tem como cerne uma ligeira história desse tráfego cultural, mostrando algumas das particularidades que envolvem o funcionamento dos sound systems na terra de Sua Majestade e aspectos do comportamento de todos aqueles responsáveis pela sua magia. Jargões, curiosidades e muita coisa referente ao que faz deles algo tão especial para nós, amantes de uma boa orgia sônica são aqui mostrados de maneira clara, ainda que o patois (o inglês como dialeto, forrado de gírias que é típico dessa cena) dificulte um pouquinho, dá para perceber o quanto as Raves devem muito a este formato de entretenimento específico.


Raul Cornejo
Raul Cornejo (madhihatter @ gmail.com)
sheer persuasion
Catalepsia
12.02.08 22:581 comentário
DON'T STOP THE PRESSES!
Fetichistas do vinil, regozijai!Na semana passada, o respeitadíssimo periódico Financial Times publicou uma matéria alentadora sobre a economia do vinil na atualidade. Graciosamente entitulada "Back In The Groove", a matéria procura abordar a dinâmica do mercado do vinil inglês nestes tempos em que, a torto e a direito, alguém declara sua morte quase que diariamente.

O mais interessante é a perspectiva inovadora que ela oferece ao mostrar que a nachleben do vinil reside não na jurássica reserva dos DJs e dancemaníacos fetichistas, mas sim em um novo nicho: os consumidores de rock e pop que se guiam pelas paradas dos grandes semanários musicais.Irônico, não? Se você pensava que a piéce de resistance dos disquinhos de plástico era o DJ no formato consagrado desde o final dos 70 e seus discípulos, enganou-se redondamente. Arctic Monkeys, White Stripes e outros lugares-comuns das rádios e charts lançam suas novidades alegremente na antiquada plataforma para o deleite de seus fãs, assim como Sex Pistols, Led Zeppellin e outros senhores respeitáveis retiram o pó de suas masters originais.

A matéria em questão toma como exemplo a pequena fábrica da Portalspace Records, situada em um galpão antigamente utilizado pela EMI para embalagem e distribuição nos tempos áureos da venda de bolachas, onde a pequena empresa instalou algumas das máquinas de prensagem que pertenciam à mesma gravadora. Contudo, a ironia mais saborosa está contida no fato de que a própria major tomou um couro financeiro recentemente e anunciou que vai mudar toda sua estratégia de negócios, começando pelo corte no quadro de funcionários e advances aos artistas , após ter tentado se aprumar para a nova torrente (piada gratuita, eu sei) de potencialidades do mercado digital, tornando-se um Leviatã corporativo. A nau está fazendo água e quem não embarcou, se safou. Enquanto isso, uma minúscula companhia fatura com algo que a gigantesca EMI já havia abanonado há eras.

DEVAGAR COM O ARDOR QUE O SANTO É DE PLÁSTICO.
O diagnóstico da matéria aponta para um presente bem mais próspero do que o propalado pelos apologetas e um futuro mais ensolarado do que o anunciado pelos profetas da digitalização. Os números são reconfortantes para as vendas de singles e reedições de clássicos do pop, cujo público-alvo encerra uma fauna composta por cinquentões nostálgicos e a molecada indie que aprecia o pedaço de vinil como um artefato vintage que vem atrelado à música (que eles podem baixar ao comprar o 7" ou o 12", se tornando um "brinde" no caso, já que pouquíssimos sequer possuem vitrolas). Mas é bom não se exaltar tanto, porque os negócios vão bem, apenas isso. É prudente não se empolgar demais porque sempre poderia ser melhor. A matéria também oferece um breve histórico dos formatos de reprodução musical, apoiado em uma análise bem competente das causas do eventual sucesso e fracasso de algumas mídias no decorrer dos últimos trinta anos, dando como resultado o óbvio ocaso do CD.

Em suma, não é como se a ilusória - e um tanto bisonha - guerra do analógico contra o digital estivesse definida a partir de agora com uma fantasiosa reviravolta. O texto apenas procura apontar um exemplo dentre muitos dos fatores através dos quais o vinil preseva sua dignidade no mercado musical. Se um contraponto for necessário para os defensores do analógico, a Polaroid já anunciou o fechamento de várias de suas fábricas, em um claro exemplo de um recurso que se tornou obsoleto e não resistiu à invasão promovida pelas novas formas digitais de reprodução de estímulos sensoriais.

Por outro lado, se você pensa que é o começo de uma nova era virtual de putaria binária onde o sonho anarco-comunista vai finalmente se materializar, vá com calma. É só dar uma olhada nas restrições que o governo britânico e o francês já divulgaram para tentar fazer o empresário do Bono parar de choramingar. It's a brave new world, but as of yet, the revolution won't be digitalized.
Raul Cornejo
Raul Cornejo (madhihatter @ gmail.com)
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