03.12.07 18:25
Não existe nada mais triste do que ver um artista, no espaço de uma hora, passar da posição de mito à de mico. Pois não existe outra maneira de classificar a tenebrosa performance do Black Devil Disco Club, no D-Edge. Toda a aura de mistério, alimentada por anos com histórias de um estúdio secreto em Paris, de uma obra-prima de disco excêntrica esquecida, pela capa com aquela "demônia" sedutora, tudo isso caiu por terra quando um tiozinho com cara de Ivan Lins (copyright Muti Randolph) e outro mais novo com cara de que não queria estar ali (conhecidos como Bernard Fèvre e Gwen Jamois) fizeram um live PA fraco, repetitivo e com brochantes pausas entre TODAS as músicas.
Eu gosto muito de algumas faixas dos álbuns do BDDC, seus fragmentos analógicos, suas batidas oblíquas e seus vocais e melodias teleportados de algum Plano 9 do Espaço Sideral. Mas também nunca achei que estivesse diante de uma tumba do faraó Tutankhamon, um tesouro sem preço finalmente desenterrado. No frigir dos neurônios, continuo investindo meu dinheiro em nomes como Patrick Adams, Orlando Riva, Giorgio Moroder e Gino Soccio como arquitetos definitivos do orgasmo cósmico em forma de pulso e melodia. O Black Devil é uma curiosidade de boa qualidade musical, mas uma curiosidade. Influente? Impossível. Como um álbum que desde 1978 tinha sido ouvido por apenas 37 pessoas pode ser influente?Mesmo assim, havia muito potencial para um bom show e eu fui empolgado. Que decepção!
Veja bem, existem alguns fatores fundamentais para um live PA dar certo. Quando o público conhece e gosta do artista ou das músicas dá certo. Quando é bem estruturado e flui bem dá certo. Quando surpreende aqueles que não o conhecem e os pega pelo estômago, não dando nem chance de ir ao banheiro, dá muito certo.
BDDC não foi nada disso. A música não era familiar e ainda por cima era antiga, sem o peso ou timbres a que estão acostumadas as pistas de hoje. O excesso de cantoria, com muito "eeee-yeee-a-aiiii" e "tchu-tchurrru", deixou boa parte da pista entre ficar perplexa ou torcer o nariz. Boa parte se dirigiu ao bar. Se houvesse um esforço de apresentar a sequência de forma mais dinâmica, ininterrupta pelo menos!, com versões diferentes e até atualizadas, o estranhamento teria sido atenuado. Mas as pausas entre cada música, às vezes de meio minuto, só fizeram piorar as coisas. Este não era um show de uma banda, mas uma apresentação eletrônica num clube, puxa vida!
Para deixar os dois num aperto ainda maior, Renato Ratier acabou atrasando sua entrada e eles tiveram que repetir músicas, o que expôs ainda mais a condição de live 100% pré-formatado. Ratier chegou e já foi mixando sua primeira faixa, evidenciando o fato de que ninguém sentiu necessidade de aplaudir.
Realmente uma pena. Mas, na arena de 2007, com tantas opções e referências, é preciso ser um pouco mais criativo e esforçado para conquistar a platéia.

Diferente do Poveza, eu conhecia um pouco mais. Só que assim como ele, me diverti MUITO. Não achei truque, ao vivo é igual ao disco mesmo. E o disco é bom, logo o live foi bom.
Não fui ver o BD, mas deve ter faltado aquele skill fora do estudio que difere DJ de produtor.